quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Paisagens da estrada
I
Gosto do que a noite carrega em seu âmago, do que a noite me traz
Gosto do silêncio convertido em segredos, da quietude que satisfaz
O respiro do entorno, adormecido sob a expectativa de que a noite e os quilômetros não custem a passar
Essa gente que encara a noite como um meio de chegar
II
O choro do bebê me acordou do que estava sendo um sonho de viagem. Toda a movimentação em torno do rebento impossibilitou uma nova soneca.
Faz frio dentro do ônibus.
Olho pela janela. Aos meus olhos míopes, tudo são manchas em tons azulados.
Até que relâmpagos vêm como feixes de luz em meio à treva da noite na estrada. Raios começam a cair. Um deles, bem próximo ao ônibus, que derrapa. Foi só o susto.
O céu parece estar vivo. O céu com certeza está vivo. E está furioso. Sabe que eu estou aqui. Quase me acertou.
Os relâmpagos assumem a forma de um monstro. Um monstro sob o comando de Deus. Talvez seja até o próprio Deus. Talvez os raios sejam raios de purificação. Mais provável, porém, que sejam raios de penitência.
O céu tem inúmeras razões para estar furioso. E diante dessa monstruosidade divina, agradeço a miopia que me priva dos mínimos detalhes do algoz da humanidade.
III
A noite para mim é uma pintura, um véu escuro salpicado de luzes. As estrelas que pontilham o céu noturno são como lapsos de esperança sobre a perspectiva amarga e negra a qual a vida nos delega.
Conforme a paisagem se mexe, busco do alto o brilho astral.
Uma estrela tímida aparece e, feito filhote surpreendido pelo predador, recolhe-se.
Não tenha medo, eu penso. Ela volta. Ganhei sua confiança.
Ela dispara sobre mim seu fulgor tão tenaz. Abre em meu rosto o sorriso. Faz com que eu feche meus olhos apaziguado. Benze meu sono e me vigia até o despertar.
De filhote acuado a projeto de sol.
Na escuridão da noite, aquela estrelinha foi meu sol.
Tal como a minha mulher, em minha vida com seus olhos de farol.
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