Os trinta estão chegando e com
eles trazendo a soma de todos os meus medos.
Nunca me disseram que seria
assim, tantas pedras no caminho.
Pedras no caminho, não fumei
nenhuma delas; tampouco as colhi para erguer meu castelo.
Topei na maioria, descalço, ralando
o calcanhar, arrancando tampa de dedão, em curiosa alegoria ao futebol de rua
da infância.
Que diria o Marcelo, bola
dente-de-leite, trave de chinelo, se visse o sr. editor, jornalista diplomado,
especialista em rock ‘n’ roll que nunca fez um centavo com o conhecimento que é
a sua maior paixão?
Quem lê pode até pensar que sou o
epítome do fracasso.
Sei que não sou e nem é essa a
impressão que quero passar, mas preciso ser realista: os trinta dos meus sonhos
eram mais saudáveis.
Dizem que a vida não nos fornece
um fardo que não possamos carregar, mas olho para trás e vejo as pegadas fundas
de quem vem trazendo um sobrepeso descomunal sobre os ombros.
Os trinta anos pesam como pesam
as responsabilidades, como pesa a frustração de não ter “chegado lá”, como
pesam os pequenos sinais de que ao contrário do que aprendemos que a vida é a
eterna busca pela felicidade, a vida é a eterna busca pela estabilidade, nunca
atingida em sua plenitude, nunca alcançável em sua integralidade.
É como se para ser feliz, no
sentido mais superficial da palavra, eu fosse obrigado a reconhecer que não
estou mal comparativamente falando.
Tem gente pior? Lógico. Tem gente
em cama de hospital. Tem gente desempregada. Tem gente lutando para trazer a
verdade à tona.
Mas isso não deveria me servir de
consolo nem de motivo para festejar em qualquer nível a incompletude da minha
realidade.
Eu quero sempre mais. Isso me
move. Ter a certeza de que esse mais beira o utópico me freia.
O colega ao lado mora com os
pais, tem um emprego de merda, não paga uma conta, vive em função dos fins de
semana, dos “qual é a boa?”, do “bora beber” numa noite de quarta-feira.
O outro vive viajando pelo mundo,
não sei se as custas do próprio trabalho ou do papai, militar de alta patente, fonte
inesgotável de recursos.
Se comparar com os outros é se
posicionar na mediocridade, reduzir os próprios méritos, se atribuir uma culpa
inexistente por um fracasso que também não existe.
Cada um no seu tempo, e eu só
gostaria de conseguir respirar normalmente.
Voltamos após os comerciais.
Ou não.
Ou não.
