segunda-feira, 3 de abril de 2017

Um passeio pelas lojas de CDs da Tijuca dez anos atrás (ou 30 de março é sempre uma merda)


Coleciono CDs desde 2001.
De lá para cá, vi uma enormidade de lojas bacanas fecharem as portas aqui no Rio.
Por mais que a internet possibilite conhecer de um tudo sem que você precise sair de casa, IR até a loja, bater papo, conhecer gente de carne e osso... É um lance orgânico.
O mesmo apego que tenho à música em formato físico tenho à experiência física de frequentar lojas de CDs.
Toda ida ao dentista rendia idas, às vezes breves, mas quase sempre demoradas, à Musicale, na Galeria Marapuama, na Tijuca.
A loja cheirava ao perfume da dona, que já era uma senhorinha, e os CDs meio que ficavam com esse cheiro.
Anos depois, encontrei essa senhorinha atrás do balcão de um pé-sujo no Centro do Rio.
Não existe cerveja em mp3, pensei.
Ao lado da Musicale, ficava a Il Camerino, comandada por um coroa que falava alto e ouvia mal.
A variedade era pouca, mas os preços compensavam.
Se na Musicale era R$ 20,00, o "seu" Camerino fazia por R$ 10,00.
Em seguida, subia a R. General Roca, atravessava a Praça Saens Peña até o Shopping 45 e tomava a escada rolante até a Boogie Oogie, um paraíso perdido precedido por lojas de roupas de bebê, joias folheadas e roupas de vó.
A Oogie era a mais cara das três, mas possuía uma seçãozinha só de CDs de hard rock, onde consegui muita coisa boa.
Uma negociação no MercadoLivre me colocou novamente em contato com o antigo dono que não escondeu a emoção quando disse que lembrava com saudade da loja: "foi uma bela fase da minha vida. Sou grato a você e a tantos outros que me permitiram viver meu sonho de ter uma loja.”.
A última parada era sempre no segundo andar do Vitrine da Tijuca, onde Darklands, Headbanger e Scheherazade resistem no que é chamado de Galeria do Rock do Rio.
Havia ainda a Som & Tom no Shopping Tijuca, onde meu então melhor amigo, que faz aniversário quatro dias depois de mim, e eu costumávamos ir para comprar os presentes um do outro.
Na troca de CDs mais marcante de minha vida, dei um The Number of the Beast e recebi em troca um Stiff Upper Lip.
A amizade foi para as cucuias, mas o CD segue na prateleira.

O bom e o ruim das lembranças é que, como a música, são para sempre.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017



Eu ainda era criança quando descobri que minha vó mentia a idade para mim.
Ela dizia ter 10 anos a menos do que tinha.
O porquê disso ou eu não sei, ou eu não lembro.
Entretanto, nunca desconfiei que ela fosse mais velha do que dizia ser.
Minha vó nunca usou da idade como argumento para pisar no freio ou viver com menos intensidade a experiência que é criar um neto.
Ela me pegava pelo braço e descia comigo as ruas arborizadas do Grajaú até a pracinha, onde eu brincava, suava e me sujava até não poder mais.
No caminho, ela me apontava a beleza nas pequenas coisas: as florzinhas amarelas no canteiro, os passarinhos que cantavam, os raios de sol que venciam a barreira formada pelas copas das árvores para iluminar nosso caminho.
Minha vó sempre foi de enxergar o belo, o divino, a dádiva nos detalhes.
Outro dia mesmo eu a flagrei sentada em sua cama, um livro no colo, olhando pela janela, atenta ao canto dos passarinhos.
Ela apontou em direção ao telhado, apresentou o passarinho como seu amigo e disse que este sempre vinha visitá-la ao entardecer.
Por alguns instantes, o ruído do mundo que gira sobre as minhas costas baixou o volume e eu pude ouvir o amigo da minha vó cantar.
Minha vó foi quem me ensinou a pegar ônibus e a fazer reverência na frente da igreja.
Minha vó me ensinou a jogar futebol de botão — me vence até hoje! — e me deu meus primeiros vídeogame e violão.
Minha vó, minha maior fã, nunca me desencorajou de fazer algo que eu realmente quisesse fazer — foi assim com a música, é assim com a escrita e com o trabalho.
Nos olhos verdes e aquarianos da minha vó, eu encontro aceitação, ânimo, preocupação, segurança e paz — sentimentos tão legítimos quanto a minha felicidade por ela estar comigo, completando mais um ano de vida.
À minha vó, os meus parabéns e o meu muito obrigado.
Ao seu amor e dedicação, retribuo com mais amor e com toda a gratidão que me couber.
Por fim, eu não vou revelar a sua idade — vou me ater a dizer que ela ainda parece ter 10 anos a menos do que tem.
E sempre parecerá.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017


Ouve "Ashes to Ashes", sua música favorita do Faith No More, ao longe.
Sente o celular vibrar dentro de si.
Deixa tocar e tocar e tocar.
A insistência de quem quer que seja é convertida num orgasmo breve porém sonoro.
Ela retira o aparelho de dentro da vagina.
Remove a camisinha que o envelopa e a descarta.
Vê nas ligações perdidas quem foi o responsável pelo gozo daquele anoitecer de terça feira.
Número desconhecido.
Esse anonimato a fascinava. 
Podia ser qualquer um.
Homem, mulher, uma máquina.
A intençao podia ser qualquer uma.
Não importava desde que o telefone vibrasse com a intensidade que a derrete.
O ritual é sempre o mesmo.
Chega em casa morta de cansaço após um dia movimentado na assessoria.
Sua equipe reduzida, o assédio moral de sempre, pautas frias para tapar buracos.
Tira a roupa, se olha no espelho, observa os seios que lhe abriram as portas para tantos empregos.
Analisa seu corpo em busca de justificativas para tantos relacionamentos fracassados.
Vira de costas, inclina-se para a frente, observa seu ângulo predileto.
Gosta da maneira que seu sexo se destaca, se projeta, destoa em cor e textura do restante de seu corpo.
Ela tem tudo o que precisa.
Senta-se no sofá que não foi quitado. 
O espelho é seu cameraman.
No móvel ao lado, estoque infinito de seu preservativo favorito.
Nada de aromas — o cheiro do látex a embriagava.
O celular, novinho em folha, película recém aplicada.
Samsung e Jontex em suas mãos parecem feitos um para o outro.
Abre as pernas apenas o suficiente.
Introduz o J2 encapado na vagina cuja umidade faz brilhar.
O acomoda dentro de si numa espécie de parto inverso.
E espera.
São sete horas.
Alguém há de ligar. 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Ferro em brasa


Deixei uma marca em você
Você levará anos até notar
Uma vez que note, vai tentar apagar
Não conseguindo, vai tentar esquecer
Vai me telefonar chorando na madrugada
Vai me perseguir na balada
Até finalmente perceber
Que a marca em mim é a mesma marca em você

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Mudanças que preenchem o tempo


Passei a tarde ouvindo "Ten Years Gone" do Led Zeppelin.
Um lembrete vívido de nossa história.
O futuro que deixamos de lado.
O passado que é melhor esquecer.
O presente inexistente.
Divide comigo essa culpa.
Divide comigo essa carga.
Divide comigo os seus sonhos.
Ainda lembro qual o seu desenho da Disney favorito.
Ou quais sabores de sorvete você escolhe no buffet.
Seu celular ainda sei de cor.
Minhas melhores lembranças têm o seu cheiro.
Céus e terras passam, mas nada disso passa.
Dez anos se passaram, mas ainda somos pássaros no ninho.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

2016S


Passei o réveillon sem óculos.
Minha virada de ano foi em baixa resolução.
Os fogos nada mais eram que pixels tricolores pontilhando o que a copa das árvores permitia que se visse do céu.
Ao meu redor, desconhecidas e desconhecidos. 
Joias e loiros falsos.
Eles sem meia, elas sem sutiã.
A fartura, o esbalde, o desbunde.
Descontração (ou desconstrução) total.
As mesmas promessas do primeiro de janeiro de 2016.
Recarga na bateria da fé.
Planos e metas que vão embora na ressaca ou ao nascer do sol.
Imaginei como 2017 seria perfeito.
Mijei essa idealização e pedi um refil.
Ainda é uma da manhã, mas já estou com saudade.