Há dias que parecem semanas que parecem meses que parecem anos.
O corpo paga o preço de uma mente cansada, da falta de
espaço em disco.
A crise está nas olheiras, no caminhar desmotivado, na aura
desiludida.
É a conta no vermelho, o ônibus que não chega, a roupa que
não cabe mais.
Não obter resposta do currículo enviado nem daquele convite
que você finalmente criou coragem para fazer.
É a internet cair no meio da partida, a TV por assinatura
ficar sem sinal em plena decisão.
"A encomenda foi perdida em assalto ao carteiro."
"Seu cartão de crédito foi recusado."
"Só tem Brahma, Devassa e Itaipava."
O celular trava, o computador trava, o discurso trava.
A lista é infinita, uma sucessão de curtas-metragens de
terror impróprios e desnecessários.
Passado o susto, sobreviver para dar o passo seguinte
torna-se desafio supremo.
Pra piorar, não é sempre que você terá com quem conversar,
desabafar, ir fundo na raiz do problema.
Talvez porque nem você saiba ao certo o que dizer,
incorrendo no perigo de falar muito em quantidade e pouco em conteúdo.
Correndo o risco de ser mal interpretado, subjugado, fazer
mal àquele que disponibilizou os ouvidos, mas não faz ideia de como levar a
ajuda um patamar acima.
Arriscando, também, descobrir da pior maneira possível que o
seu fundo do poço não interessa a quem quer que seja.
Meu inferno não é mais quente que o dos outros.
Tristeza, insatisfação, não atraem.
Adaptando Richard Bach muitos pés abaixo do voo de seu
Fernão Capelo Gaivota: a merda é uma questão pessoal.