sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Poesias #5

310.

Não me pergunte se estou curado
Nunca estive enfermo
Foi só o coração que perdeu o rumo

320.

Queria estar sentindo falta
Mas o alívio é tão grande
Que o vazio me alegra

330.

Me diz se é bom ou não
Quando trocamos o sono pelo riso
E trocamos de roupa um na frente do outro
E perdemos a hora de ir pro trabalho
Mas tudo bem
Desconto por atraso é felicidade que se compra

340. (V.I.)

Me dá um beijo ensurdecedor
No escuro o tato dá as regras
Quando estamos juntos, sou o homem melhor
No entrelaçar de dedos, lábios e pernas nos tornamos um
E apenas murmúrios ofegantes cantam no silêncio
Trilha sonora do nosso caos de amor e tesão

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Poesias #4


A fé é cega

Fez o sinal da cruz
Mas era o Theatro Municipal


Tercio de muerte

Não entendo essa obsessão
De expor suas fraquezas
Para que se deleitem com suas incertezas
E concluam o quanto está ou não está feliz
Do mesmo modo tuas palavras
Afiadas feito farpas
Visando poucos
Acertando muitos
Tu não poupas nem a si
Não ouses poupar a mim

Esse teu jeito que fascina
Por ser tragédia anunciada
Me faz correr em disparada
Saltar no escuro do abismo
E me faz querer ver sangue
Na esperança que o gangre
Fira e nos faça perecer

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A vida é uma iscola


Em "Um trem para as estrelas", Cazuza e Gilberto Gil prometem o desprezo a quem os ensinou que a tristeza é uma maneira da gente se salvar depois.
Devo discordar da dupla; qualquer um que um dia tenha me ensinado o que quer que seja jamais terá o meu desprezo.
Pode ser que a vida se encarregue de desviar nossos caminhos, levando-nos a direções opostas.
Pode ser que o céu solicite a presença de um de nós antes da hora, assim, súbita e repentinamente.
Ou que, por sorte ou azar — só o tempo dirá —, nunca mais sequer saibamos um por onde anda o outro.
Tem sido assim durante toda a vida.
Todo mundo, a todo instante, me ensina algo.
Todo mundo é professor na essência.
O menor bate-papo é uma aula.
Hoje o taxista me ensinou como se dá a cicatrização dos ligamentos do tornozelo.
Nem sempre as palavras são necessárias.
Uma situação pode nos ensinar algo — destino e acaso, dois professores.
O mendigo agarrado ao crucifixo ensina que é preciso ter fé — ainda que a fé não nos tenha com ela.
Lágrimas são indicativos de que há sempre o que aprender.
O choro de quem tirou zero na prova da existência.
Aluno de mim, professor que sou, procuro ensinar-me o que finjo saber.
Mesmo professores estão sujeitos ao ato falho.
As aulas de reforço vêm na forma de madrugadas em claro.
Estou estudando enquanto escolho com o quê irei torturar o meu fígado nesta noite.
Quando alcoolizado, sou PhD. em toda e qualquer ciência.
Sóbrio, me deflagro de castigo sem recreio.
A você que me ensinou que a tristeza é uma maneira da gente se salvar depois, o meu muito obrigado. Não darei o meu desprezo.
Mas que a vida se encarregue de desviar nossos caminhos.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Purple [Radio Edit]


Agosto de 2008, mês do desgosto de um ano decisivo, Lapa.
Amizades virtuais ganhando vida sob o letreiro do finado point, sob a expectativa de mais uma festa e o receio de mais uma malfadada noite em alto teor etílico.
Teu físico atraiu — um vislumbre de cor em meio à escuridão da pista.
Teu espírito cativou — Foste calmaria em meio ao temporal.
Tua beleza — interior e exterior — empalideceu todos os adjetivos que ousaram defini-la em palavras.
A Bíblia diz que quem encontra um amigo, encontra um tesouro.
A vida, através de ti, me mostrou o quanto isso é verdade.
No river too deep or mountain high.
Viraste música em meus dedos.
Canção para o repertório de minh'alma.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Ouvir com o coração


Escritora amiga minha desabafou no Facebook:
“Meu terceiro livro se chamará ‘Homens’. Terá apenas uma página com uma frase escrita: ‘Homens não conseguem se manifestar emocionalmente. ’ Fim.”
Entendo a revolta.
No entanto, verdade seja dita: manifestar-se emocionalmente pode não ser nada fácil.
Digo isso por que:
1) Às vezes o medo toma conta e castra o ímpeto de fazer-se ouvir em alto e bom som.
2) Às vezes pensa-se muito, com receio de que o discurso surta menos efeito que o silêncio.
3) Às vezes é tentador e necessário flertar com a morte por asfixia pelas coisas não ditas.
4) Às vezes o amor é tanto que não há palavras — na maioria das vezes é isso, se me permite a opinião.
Não reclame a falta de um “eu te amo” em altos brados.
Não confunda o meu silêncio com descaso.
Não confunda a minha individualidade com tendência à solidão.
O amor não conhece a sua própria profundidade até a hora da separação, diz o profeta do livro de Khalil Gibran.
Portanto, poupe-se das palavras que levariam à separação.
A quem ama, basta o ouvido do coração.