segunda-feira, 30 de novembro de 2015
2015 no IML
O ano ainda não acabou, mas eu me sinto compelido a dissecá-lo, ainda que rapidinho, como uma vídeo-aula resumida de medicina legal.
Eu, nunca adepto das conspirações do universo de acordo com a energia que você projeta nele, fui rebatido a ponto de me converter a esse pensamento que, sem didatismo mas visando educar, agrega todo um propósito em tudo aquilo que fazemos: o universo nos devolve aquilo que damos para ele.
Em 2015, eu descobri o quanto a vida online pode ser tóxica; o quanto as palavras podem ser afiadas; o quanto o não se manifestar pode ser desolador e, ao mesmo tempo, um escudo.
Fora da rede, percebi que havia deixado de lado muita coisa importante e procurei recuperar o tempo perdido com desespero; fui de encontro a quem há tempos havia deixado de lado e procurei entender melhor as causas dos afastamentos, infelizmente, ainda muito frequentes.
Meus vacilos adquiriram um peso acima da média, tanto no trabalho quanto na vida pessoal. Passei a me cobrar muito mais enquanto ser humano e profissional, e a tolerar cada vez menos os escorregões aos quais todo mundo está sujeito.
Acho que nunca pedi tanto perdão na vida e nunca fiquei devendo tanto as minhas mais sinceras desculpas. Também acho que nunca paguei tanto pelos erros que cometi — depois de certa idade, todo castigo vem com juros e correção monetária. Cheguei perto de não conseguir me encarar diante do espelho — o que foi bom para repensar certas condutas.
Fiz algumas visitinhas ao fundo do poço, onde pude reunir o mana necessário para conjurar o meu retorno de volta à superfície
Em 2015, o câncer levou meu avô, os anos de excessos levaram meu tio-avô, o coração levou uma grande amiga.
No vai e vem da convivência, uns caíram fora ao menor deslize, outros chegaram a tempo de ver o palco desabar. Poucos me estenderam a mão no olho do furacão. Muitos desses poucos vivem a km de distância de mim.
Meu corpo me deu uns sustos. Minha saúde, sempre de ferro — exceto, talvez, pela asma —, apresentou sinais de oxidação. Em 2016, uma nova rotina precisará ser estabelecida.
Minha escrita tomou a dianteira enquanto válvula de escape, mas sigo compondo e um dia pretendo lançar — a menos que o Senhor tenha outros planos para mim.
Minha musicalidade aprimorou-se com o auxílio de um sujeito que posso considerar, além de mestre, um amigo, que nas entrelinhas das lições, me mostrou que o céu é o limite, que por melhor que você seja, sempre haverá espaço para melhorar ainda mais.
Nunca como em 2015 desejei tanto poder voltar no tempo; retroceder ao pequeno ser que já fui, à condição de dependência, à necessidade do carregar, do alimentar, do assear; do faro de minha mãe, preciso e perito, que ao menor sinal, identificava o que quer que pudesse haver de errado comigo.
E é com sorriso no rosto que admito o que alguns — infelizes — chamariam de fraqueza: ainda sou dependente do colo, do carinho e do conforto de minha mãe. Pois não há nada que se compare a certeza que ela me dá de que a vida encontrará um caminho.
Não posso ignorar os shows que assisti, os livros que li, os trabalhos que realizei, os bens que adquiri e como passei a dar valor ao que realmente importa: a paz, estar em paz, comigo e com o universo.
Estou em paz e sem ressentimentos, como um carro que explodiu depois de cair do penhasco e encontrou no fogo a purificação.
Minha fé na humanidade ainda respira com a ajuda de aparelhos, mas minha esperança no futuro brilha no olhos daquela que me adora.
Vem, 2016. Se pera caso eu estiver errado a seu respeito, que seja errado em meu favor.
terça-feira, 24 de novembro de 2015
Poesias #7
Hollywood
drummond
se vivo hoje em dia
no lugar de quadrilha
escreveria centopeia humana
Amor: o retorno
teu amor para mim é refugo
e de nós dois só ficou o resíduo
te abraçar é mergulhar no monturo
reviver (em HD) um fracasso antigo
nosso adeus te tornou sapucaia
dura, pesada, carnosa e pálida
recordar é álcool na ferida
hoje chagas purulentas
atroz amor em carne viva
Ter a fama por ter a obra ou não ter a obra e só ter a fama?
Quero ser lembrado pelos méritos legítimos
Os quais possam ser comprovados
Ter meus atos reconhecidos
Ainda que tenham sido atos falhos
E que eu sirva de exemplo
Mesmo que exemplo a não ser seguido
Mesmo que exemplo a não ser lembrado
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
Quando o sol invade os olhos
Em 2005, eu não era como a maioria dos colegas era.
De fato, eu meio que personificava o estereótipo que eles mais repudiavam.
Enquanto todos eles tinham suas mochilas da Jamf, eu preferia minha mochila jeans com patch do Guns N' Roses costurado.
Nike Shox? Detestava. Preferia os Olympikus que, além de tudo, eram muito mais baratos — embora às vezes fosse difícil encontrá-los no tamanho 45.
Toda aquela indumentária praiana, floral, Posto 9... nada disso me atraía.
Muito mais maneiro aquele jeans rasgado nos joelhos, a camiseta do Iron Maiden já cinza de tanto lavar — nunca fedendo, importante frisar.
Talvez por isso eu me sentisse um expatriado, ovelha-negra, alívio cômico.
Talvez por isso eu jamais tenha me sentido, de fato, integrado ao ambiente no qual alguns tentaram me inserir.
"Para de usar só preto", diziam. "Você quer pegar mulher ou não quer?"
Óbvio que queria. Uma em especial.
Ela achava "muito f***" (com os * mesmo) eu ouvir as bandas que "meu irmão mais velho ouve".
Ela achava "legal" eu levar o violão para a escola enquanto a maioria tentava se afirmar jogando bola ou fumando escondido no colégio — não que ela desprezasse os atletas. Na verdade, a paixonite dela era justamente um dos craques do time, descobriria da pior maneira possível mais tarde.
Ela, então, me convidou para ir ao seu aniversário, que seria realizado num evento de nome nada motivador: Rio Playsson Party.
Imaginei logo toda aquela "rapeize" Redley, cabelo com parafina, suas gírias e maneirismos, contando vantagem sobre aqueles que não se enquadrassem no padrão que havia se estabelecido.
Que merda.
Mas o pior de tudo não seria ter de ser alvejado pelos olhares de lentes de contato e imaginar os julgamentos que estariam sendo feitos. O pior seria encarar três horas e pouquinho de três bandas que só de ouvir os nomes já me embrulhavam o estômago. Entre elas, o tal do Forfun.
Ela adorava o Forfun. O MSN dela denunciava tamanha paixão. As comunidades das quais fazia parte, idem.
"Felicidade é um fim de tarde olhando o mar".
Eu achava isso o maior lero-lero.
Tomei um ódio particular dessa música em especial quando a vi beijando outro cara (mencionado acima) no maldito evento.
"Os R$ 15 mais mal-gastos da minha vida", por tempos sustentei tal afirmação.
Por tempos, culpei o Forfun pelo meu fiasco na Rio Playsson Party.
Dez anos se passaram. Soube que o Forfun está realizando uma turnê de despedida. "Eles duraram esse tempo todo?", pensei.
Coincidência ou não, reencontrei aqueeela garota na rua dia desses.
Os anos só acentuaram nossa incompatibilidade, já bastante evidente na época da escola e que só eu não enxergava.
Por outro lado, a letra de "Hidropônica" passou a fazer total sentido.
Um mergulho no mar de Ipanema, com o céu meio nublado; o mergulho da purificação, da restauração; a sensação de que todas as impurezas da minha alma foram diluídas na água salgada.
O peso do mundo que carregava em meus ombros tornou-se areia a repousar sob meus pés.
Olhei para o céu, o sol se pondo no horizonte, um ou outro raio de sol perfurando as nuvens espessas da chuva que estava por vir.
Mirei as ondas em seu espetáculo soberbo e sonoro.
O Forfun estava certo o tempo inteiro.
Felicidade é um fim de tarde olhando o mar.
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
Poesias #6
Qual é o nome da tua insônia?
Qual é o nome da tua insônia?
Quem é que reina na tua madrugada?
Abre tua porta, acende tua luz
Te faz revirar de um lado ao outro em busca da melhor metade da cama
Quem é que te tira o sono?
E torna o teu dia seguinte pesadelo
Te arrasta pelo corredor
Te arrasta para os afazeres
Te reaproxima da fé há tempos perdida
É motivo e propósito das tuas orações
Qual é o nome da tua insônia?
Quem mais ousaria cometer tal desatino em troca do teu abraço acolhedor?
Que outro sorriria em deleite ante as tuas olheiras?
Quem é que manda no teu sonho?
Quem é que te tira o sono?
Quem é que equivale a céus, mundos, astros?
Pilota o teu universo como um trator
Em meio ao véu de estrelas do céu noturno
Quem é o café da sua mente?
Que te acorda, que te prende
Que te faz querer ficar online
Diz o nome da tua insônia
Aquela que visualiza e não responde
E que mesmo em silêncio, mesmo à distância
Reivindica e consegue a melhor metade da cama
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
320 kbps
Não é de hoje que faço playlists para você.
Esta não apenas é a maneira que eu encontro de estar presente no seu dia-a-dia — pelo menos enquanto você não enjoa das músicas —; é também a maneira que eu encontro para transmitir o que sinto.
Quando as palavras me fogem, peço emprestados versos da autoria de meus ídolos que tão milimetricamente traduzem o que passa dentro de mim.
Cada música é sempre escolhida a dedo.
A ordem em que elas aparecem na lista nunca é aleatória.
Artistas que se repetem, às vezes num mesmo volume, conquistaram seu posto com méritos líricos.
Mas além disso, é importante dizer que cada música escolhida torna-se parte do meu repertório pessoal com você; da nossa história, por assim dizer.
História essa que deu margem ao azar incontáveis vezes, parecendo permitir que o universo conspirasse contra o que, um dia, foi sonho.
O destino despeja as pessoas em cima de nós; e nós escolhemos quem merece ficar.
Incontáveis vezes fiz o favor, quase implorei, para que você me jogasse fora, desistisse de mim.
Tantas outras eu, num esforço hercúleo, procurei superar sentimento que invade, toma conta e deixa marcas.
Nunca rolou.
De ambas as partes.
Nas nossas tentativas de desapego, nos tornamos cada vez mais fundamentais um ao outro.
Busque as mensagens por trás de cada música e encontre a mim.
terça-feira, 17 de novembro de 2015
Golpe fantasma de fênix
Nos conhecemos na antiga CA; eu já com seis anos, ele, ainda com cinco.
Era recreio, éramos de turmas diferentes, nosso primeiro contato foi numa troca de figurinhas do álbum dos Cavaleiros do Zodíaco — não aquele primeiro, que tínhamos que colar as figurinhas com cola, o seguinte, do filme, com figurinhas autocolantes e uma ou outra holográficas, que na troca valiam duas "normais".
Aliás, foi por violar essa "regra", aceitando somente uma figurinha "normal" em troca de uma holográfica, que percebi que poderíamos ser amigos.
A primeira vez que brincamos juntos foi dias depois. De Cavaleiros do Zodíaco. Em nossa fase de testes, tivemos nossa primeira briga. O motivo: nós dois queríamos ser o Ikki.
No ano seguinte, as duas turmas da CA viraram uma hiper-turma de primeira série. Lá estávamos eu e ele, juntos, na mesma sala. O álbum da vez era o do Brasileirão daquele ano. Estabelecemos uma sociedade na coleção: completaríamos um álbum juntos.
Os critérios de troca foram atualizados: figurinhas de craques — Romário, Bebeto, Sávio — tinham o peso das holográficas trazendo os escudos dos clubes.
Adorar, entender e colecionar futebol não resulta em Bola de Ouro. Na educação física, dois pernas de pau, sempre torcíamos para cair no mesmo time. Era a garantia de boas risadas. Secretamente apostávamos quem seria o primeiro a ser expulso por uma falta violenta.
E por falar em ser mandado para fora do jogo, foram muitas as suspensões ao longo do primário por aprontarmos além da conta — ainda que nossos boletins não refletissem isso.
Cuidávamos um do outro e nos ajudávamos.
Eu, fera em história, geografia e idiomas dava uma força para ele, gênio das exatas e biológicas, justamente o meu ponto fraco.
Começamos a frequentar as matinês juntos. Íamos ao cinema com outros amigos e amigas. Compartilhamos um bocado das melhores e piores experiências da pré-adolescência.
Ele estava presente no meu primeiro porre. Eu estava presente no enterro da avó dele.
Foi para mim que ele ligou quando levou o primeiro pé na bunda. Foi o pai dele que me deu meu primeiro emprego.
Cumplicidade.
Amizade.
Sou daqueles que acredita nos propósitos da vida.
Nada acontece por acaso.
A vida se encarrega de reduzir a pó quando há necessidade.
"Das cinzas nascem as flores", diz a minha vó.
Houve um tempo em que eu comparava nossa amizade a de Dalton e Wade em Matador de Aluguel, ou a de Forrest e Bubba em Forrest Gump.
Fomos, assim, amigos até começarmos a discordar política e religiosamente.
Em tempos de acalorados debates virtuais, opiniões divergentes expoem a fragilidade do atual conceito de amizade: imunodeficiente, que deteriora a menor exposição ao mau tempo, e faz tanta falta quanto pijama em lua de mel.
Não me surpreendeu quando visitei seu perfil e confirmei que ele havia desfeito a "amizade" comigo.
O "desfazer amizade" no Facebook foi mera simbologia; nós já havíamos deixado de ser amigos há muito tempo.
Tentei ligar para ele no seu aniversário. Chamou até dar caixa postal.
Ele entrou no mesmo ônibus que eu estava. Passou direto, sentando-se afastado de mim.
As últimas eleições soterraram a nossa história.
Nas próximas terá o meu voto ao candidato que me assegurar que não perderei mais nenhum amigo.
Reunião dos ex-colegas de colégio, alguns dos quais brincavam de Cavaleiros do Zodíaco comigo e com meu ex-amigo.
Lá pela vigésima rodada, a mudança radical do meu ex-amigo — descobri que não fui o único a ser deletado do Face e da vida dele — veio a baile.
— Hoje em dia vocês não brigariam pelo papel de Ikki, Marcelo. Dizem por aí que ele agora está mais para Shun de Andrômeda.
A mesa sacou a referência e caiu no riso.
Menos eu. Agora, mais do que nunca, eu continuaria sendo o Ikki.
Onde quer que você esteja, seja forte, Shun. Meu eterno irmãozinho.
segunda-feira, 16 de novembro de 2015
Idoso na era digital
oito e meia da manhã o telefone toca.
— se for a oi de novo, eu vou mandar tomar no cu.
do outro lado da linha, uma velha à beira do abismo da morte diz que eu fui o sorteado na rifa da igreja.
essas rifas de igreja são foda. é o tipo de coisa que você assina e seja o que deus quiser. que nem as supostas cortesias de editora que você só lembra quando chega a fatura do cartão cobrando a primeira parcela da assinatura de alguma revista.
enfim, deus quis que eu ganhasse uma coisa chamada tablet.
meu último contato com tecnologia de ponta é tão antigo quanto a extinta tv excelsior.
fui na sacristia da paróquia resgatar o prêmio um outro senhor que eu só conheço de vista da fila da lotéria foi contemplado com um jogo de resta-um. que inveja! o último que eu tive, dolores zuniu pela janela numa das muitas vezes que cheguei trincado de birita e fedendo.
eu mal conseguia ligar o tal tablet. dolores me mostrou o manual. tudo em chinês, japonês, coreano, sânscrito, o que for. só leio em português. meu vocabulário em inglês, nulo até então, adquiriu sua primeira palavra: tablet.
— CONSEGUIIIII
aquele "iiiii" ficou ecoando no meu telex por minutos. dolores era foda de esperta. mas mais esperto ainda fui eu, que a escolhi para ser a última mulher da minha vida. pelo menos até onde ela sabe.
os dez reais da rifa fui eu que paguei, mas foi dolores quem tomou o prêmio para si. ela não desgrudava mais do tablet. nada mal para uma senhora às vésperas de ter direito a gratuidade no ônibus. meu riocard sênior já está todo torto e gasto.
a comida parou de ser servida na hora. as camisas nem sempre estavam engomadas. a cama passou a ser feita à moda caralho. nem o programa de rádio do padre marcelo rossi ela ouvia mais.
às vezes, retornando da minha caminhada matina, nem um 'oi' eu ouvia. olhos fixos naquela merda com tela.
sempre me disseram que discutir relacionamento era coisa de mulher ou maricas. definitivamente não era o meu caso, mas eu precisava saber até quando aquela palhaçada iria continuar.
minha velha nem tão velha, quatro décadas juntos. doei um rim para ela. pago todo mês o boleto do canal cristão sem reclamar.
esperei terminar o jornal nacional.
— dolores...
sem resposta.
filha da puta. dormiu. foda-se.
no dia seguinte, nada do meu café. dolores ainda no sofá.
aquele cheiro não me era estranho.
dolores estava morta. em suas mãos, o tablet, o anjo da morte fabricado na china, trazido a esta casa por intermédio divino.
infarto fulminante.
enterrei dolores.
muitos dias e conhaques depois, liguei o tablet assassino como se houvesse a possibilidade de interrogá-lo, de fazê-lo pagar.
uma imagem como há tempos não via. coisa que não passava na tv excelsior. em cores!
finalmente entendi o que aquele apresentador lá, o hulk, quer dizer com ALTA DEFINIÇÃO.
um toque na tela e a pica entrava e saía, a boceta sendo castigada, o suor; um garotão, duas meninas, todos possuídos, incontroláveis.
virei o porta-retrato com o rosto de dolores contra a mesa.
dei uns tapinhas nele mole para ver se enrijecia.
o gemido decibélico de uma das gatinhas parece ter esgotado a bateria do tablet, que desligou antes de consumado o ato.
será que vendem viagra na farmácia popular?
e essa porra de dor no braço esq...
quinta-feira, 12 de novembro de 2015
R.I.P. Celo
Hoje pela manhã foi encontrado o meu corpo.
Não se sabe ainda a causa da morte.
A bem da verdade, muitas coisas podem ter feito meu coração parar de bater.
Ele bebia demais, comia demais, trabalhava demais.
Ele dormia de menos, se exercitava de menos, era responsável de menos.
A vida lhe foi impiedosa. Não lhe restava mais nada. Suicídio?
"Seu dinheiro não lhe trazia felicidade" — mas a pobreza também não me traria porra nenhuma, né?
Mas isso não importa.
Já confinado, a caminho do solo onde me aguardam os vermes, procuro imaginar o que estariam dizendo aqueles que, permanecendo no reino dos vivos, terão de lidar com a minha ausência.
O choro nem sempre transparece a verdade oculta dentro de nós.
Por favor, não ousem me beatificar.
Não atingi a santidade em vida, de que vale a idolatria na morte?
Permitam-me escutar sua sinceridade.
Cadáver não sabe o que é decepção.
"Marcelo me iludiu", podem pensar uma ou outra.
"Eu o iludi, e agora que ele está morto, jamais me perdoarei." (Esta, com certeza, está combinando bar com os amigos para depois do meu enterro)
"Marcelo era emocionalmente imaturo!"
"Marcelo se achava a última bolacha do pacote!"
"Egocelo sofria de transtorno de autorreferência."
"Makotop gostava mais dos seus discos que de qualquer outra coisa."
"Magordo quase nunca vinha ver o afilhado."
"Marcelo era o melhor parceiro no Metal Slug."
"Marcelo era o pior adversário no Magic."
"Marcelo tocava violão com paixão, apesar de não tocar porra nenhuma."
E os posts no Facebook?
"Makothieeeeeeeeee bor gue vose tia gue morreeeeeeeeeeeeee????"
"R.I.P. Celo"
"A Hardlands não será a mesma sem você."
"Fly to the angels, Celinho."
Fora as fotos com textão e os clipes de músicas que, eventualmente, fizessem um ou outro lembrar de mim.
"Este Kick Axe é para você, Makotinho."
"Marcelo Tuff [banho] vai deixar saudade."
Vislumbro aqueles que, em seu silêncio, vêem-se incapazes de perdoar Deus, as circunstâncias ou eu mesmo.
Tudo isso parece me comover de uma maneira estranha.
Em vida, eu provavelmente teria chorado já.
Mas no silêncio da eternidade, não há espaço para lágrimas.
Ao término da oração, uma voz irrompe em meio à capela:
"Tremendo de um filho da puta, já foi tarde!"
O corpo morto sorri.
Fiz um bom trabalho.
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
Sim, te perdôo
A vida nos ensina que o perdão não é mágica.
Pedir perdão não é um abracadabra ou um abre-te sésamo.
O perdão não vem a partir de um comando.
O perdão não é algo que se programe; não é uma linha de código ou uma resposta automática de e-mail.
Você não pode prever o perdão.
Perdão também não é uma obrigação.
Você não pode contar com o perdão como um álibi tardio.
Não espere que aliviem a sua barra sempre que você fizer uma merda; pensar nas consequências dos atos faz parte do desafio diário que é a vida.
Perdão também não é um prêmio.
Equivale ao sentimento de ver um filho sair da cadeia após um período de reclusão; é alívio mesclado a vergonha.
Perdoar não equivale a dar uma segunda chance.
Todo mundo tem seus limites.
Os créditos do celular podem ser estourados em uma ou dez ligações.
Pedir perdão não torna você superior, mas se há um Deus lá em cima, talvez conte pontos e vantagens para a hora da partida.
Não estou dizendo que quem admite o erro conquista o lugar na janela do avião para o além.
Mas, sem dúvida, não tem de pagar multa por excesso de bagagem.
Perdoar também tira o peso dos ombros, ainda que não apague a mancha da desconfiança.
Perdoar não é amar o outro, mas amar a si.
Perdoar é acreditar que só a morte é irreversível.
Pedir perdão é só um primeiro passo.
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
Poesias #5
310.
Não me pergunte se estou curado
Nunca estive enfermo
Foi só o coração que perdeu o rumo
320.
Queria estar sentindo falta
Mas o alívio é tão grande
Que o vazio me alegra
330.
Me diz se é bom ou não
Quando trocamos o sono pelo riso
E trocamos de roupa um na frente do outro
E perdemos a hora de ir pro trabalho
Mas tudo bem
Desconto por atraso é felicidade que se compra
340. (V.I.)
Me dá um beijo ensurdecedor
No escuro o tato dá as regras
Quando estamos juntos, sou o homem melhor
No entrelaçar de dedos, lábios e pernas nos tornamos um
E apenas murmúrios ofegantes cantam no silêncio
Trilha sonora do nosso caos de amor e tesão
Não me pergunte se estou curado
Nunca estive enfermo
Foi só o coração que perdeu o rumo
320.
Queria estar sentindo falta
Mas o alívio é tão grande
Que o vazio me alegra
330.
Me diz se é bom ou não
Quando trocamos o sono pelo riso
E trocamos de roupa um na frente do outro
E perdemos a hora de ir pro trabalho
Mas tudo bem
Desconto por atraso é felicidade que se compra
340. (V.I.)
Me dá um beijo ensurdecedor
No escuro o tato dá as regras
Quando estamos juntos, sou o homem melhor
No entrelaçar de dedos, lábios e pernas nos tornamos um
E apenas murmúrios ofegantes cantam no silêncio
Trilha sonora do nosso caos de amor e tesão
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
Poesias #4
A fé é cega
Fez o sinal da cruz
Mas era o Theatro Municipal
Tercio de muerte
Não entendo essa obsessão
De expor suas fraquezas
Para que se deleitem com suas incertezas
E concluam o quanto está ou não está feliz
Do mesmo modo tuas palavras
Afiadas feito farpas
Visando poucos
Acertando muitos
Tu não poupas nem a si
Não ouses poupar a mim
Esse teu jeito que fascina
Por ser tragédia anunciada
Me faz correr em disparada
Saltar no escuro do abismo
E me faz querer ver sangue
Na esperança que o gangre
Fira e nos faça perecer
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
A vida é uma iscola
Em "Um trem para as estrelas", Cazuza e Gilberto Gil prometem o desprezo a quem os ensinou que a tristeza é uma maneira da gente se salvar depois.
Devo discordar da dupla; qualquer um que um dia tenha me ensinado o que quer que seja jamais terá o meu desprezo.
Pode ser que a vida se encarregue de desviar nossos caminhos, levando-nos a direções opostas.
Pode ser que o céu solicite a presença de um de nós antes da hora, assim, súbita e repentinamente.
Ou que, por sorte ou azar — só o tempo dirá —, nunca mais sequer saibamos um por onde anda o outro.
Tem sido assim durante toda a vida.
Todo mundo, a todo instante, me ensina algo.
Todo mundo é professor na essência.
O menor bate-papo é uma aula.
Hoje o taxista me ensinou como se dá a cicatrização dos ligamentos do tornozelo.
Nem sempre as palavras são necessárias.
Uma situação pode nos ensinar algo — destino e acaso, dois professores.
O mendigo agarrado ao crucifixo ensina que é preciso ter fé — ainda que a fé não nos tenha com ela.
Lágrimas são indicativos de que há sempre o que aprender.
O choro de quem tirou zero na prova da existência.
Aluno de mim, professor que sou, procuro ensinar-me o que finjo saber.
Mesmo professores estão sujeitos ao ato falho.
As aulas de reforço vêm na forma de madrugadas em claro.
Estou estudando enquanto escolho com o quê irei torturar o meu fígado nesta noite.
Quando alcoolizado, sou PhD. em toda e qualquer ciência.
Sóbrio, me deflagro de castigo sem recreio.
A você que me ensinou que a tristeza é uma maneira da gente se salvar depois, o meu muito obrigado. Não darei o meu desprezo.
Mas que a vida se encarregue de desviar nossos caminhos.
sexta-feira, 2 de outubro de 2015
Purple [Radio Edit]
Agosto de 2008, mês do desgosto de um ano decisivo, Lapa.
Amizades virtuais ganhando vida sob o letreiro do finado point, sob a expectativa de mais uma festa e o receio de mais uma malfadada noite em alto teor etílico.
Teu físico atraiu — um vislumbre de cor em meio à escuridão da pista.
Teu espírito cativou — Foste calmaria em meio ao temporal.
Tua beleza — interior e exterior — empalideceu todos os adjetivos que ousaram defini-la em palavras.
A Bíblia diz que quem encontra um amigo, encontra um tesouro.
A vida, através de ti, me mostrou o quanto isso é verdade.
No river too deep or mountain high.
Viraste música em meus dedos.
Canção para o repertório de minh'alma.
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
Ouvir com o coração
Escritora amiga minha desabafou no Facebook:
“Meu terceiro livro se chamará ‘Homens’. Terá apenas uma
página com uma frase escrita: ‘Homens não conseguem se manifestar emocionalmente.
’ Fim.”
Entendo a revolta.
No entanto, verdade seja dita: manifestar-se emocionalmente pode
não ser nada fácil.
Digo isso por que:
1) Às vezes o medo toma conta e castra o ímpeto de
fazer-se ouvir em alto e bom som.
2) Às vezes pensa-se muito, com receio de que o
discurso surta menos efeito que o silêncio.
3) Às vezes é tentador e necessário flertar com a
morte por asfixia pelas coisas não ditas.
4) Às vezes o amor é tanto que não há palavras — na maioria das
vezes é isso, se me permite a opinião.
Não reclame a falta de um “eu te amo” em altos brados.
Não confunda o meu silêncio com descaso.
Não confunda a minha individualidade com tendência à
solidão.
O amor não conhece a sua própria profundidade até a hora da
separação, diz o profeta do livro de Khalil Gibran.
Portanto, poupe-se das palavras que levariam à separação.
A quem ama, basta o ouvido do coração.quinta-feira, 27 de agosto de 2015
Juntos na solidão
Enquanto estive longe, outro esteve onde eu gostaria de ter estado.
Antes, eu me divertia fazendo de conta que você era solteira.
Agora, tenho um lembrete vivo de que você é casada.
Esteja comigo para mais um almoço, mais um abraço, mais um plano infalível.
Vamos conquistar o mundo, juntos, esta noite.
Ainda que juntos na solidão.
quarta-feira, 26 de agosto de 2015
Sobre rissoles e Goo Goo Dolls
Começou a rolar "Estranged" no toca-fitas do Monza tubarão.
"Old at heart, but I'm only 28, and I'm much too young to make love break my heart."
Refleti.
Ele já o fizera.
Já partira o meu coração.
O amor.
Algumas vezes.
A primeira vez foi aos 16.
Ela tinha 15. A mecha cor de rosa destacava-se em meio àquele loiro de farmácia. Seus olhos tenros pediam lápis. Seus lábios naturalmente avermelhados dispensavam batom. Sentava-se ao meu lado na escadaria que dava para o pátio do colégio. Ouvia atenta e calada os poucos acordes que eu sabia no violão.
Me apaixonei pela atenção que a mim dispensava. O "garoto do violão" tende a ser o expatriado.
Soube que sua canção favorita era "Iris". Goo Goo Dolls, banda chata de um hit só: este. A música era tema de Cidade dos Anjos, um dos filmes responsáveis por plantar em mim a certeza de que, no fim das contas, dá merda.
E com esta menina, deu.
Caprichei nos preparativos: jeans novos, tênis impecavelmente limpo, Drakkar Noir.
Na ausência da barba, o cabelo por cortar era o charme.
Tocou o sinal, saí da sala de aula triunfante, violão nas costas.
Sentei-me no degrau de sempre. Ela sentou-se minutos depois. Não dispensava o risole da cantina no recreio.
Havia praticado a porra da música por horas a fio. Em tempos pré-YouTube, recorri ao VHS que havia gravado da MTV. Tentava tocar junto com o clipe. No primeiro erro, rebobinava até o começo e tentava de novo. Fui das duas às sete assim.
Até que consegui. Uma mísera vez. Aí me concedi permissão para ir ao banheiro devolver a perna do saci.
Seu olhar dócil mirava o tampo escuro e envernizado do violão. Era um Michael da linha mais baixa-renda que existia. Um pau com cordas, para ser sincero.
Seus lábios brilhavam da gordura do rissole. Sua boca, um céu cujas estrelas eram resíduos de empanado que eu faria de tudo para irem de encontro ao meu paladar.
Toquei em seu ombro, ela se virou. Olhou-me com aqueles olhos delineados de preto. Um traço sutil que lhe conferia um semblante maduro.
"And I give up forever to touch you..."
Naquele momento éramos eu e ela. Na minha cabeça, dançávamos ao som da valsa.
À medida que prosseguia cantando e tocando, notava certa inquietação tomando conta de seu rosto.
À medida que eu avançava em minha pretensão musical, seu rosto se torcia como se levasse um choque elétrico.
"AND I DON'T WANT THE WORLD TO SEE ME..."
Ela se levanta. "Você canta mal para caralho, hein? Tá doido!"
E se vai.
E se foi.
Para sempre.
Até semana passada, quando a encontrei.
De longe parecia ser mesmo ela: o tom platinado no cabelo, só que sem a mecha que outrora me cativou.
Mas estava uma bola.
Fiquei matutando se poderia ser, tentando estabelecer o paralelo entre a doçura do passado e a adiposidade do presente.
Quando pediu um rissole no balcão, não tive dúvidas: era ela.
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
Noite feliz
Padrões de luzes e cores pelo chão.
Estranhos manequins fugindo do luto diário, movidos por música e álcool.
Bocas abertas, olhos fechados, acende-se um cigarro.
Apaga essa porra, diz o segurança, feito capitão-do-mato ao encontrar um escravo fugitivo.
O ritual se repete, reinicia-se a cada cinco minutos ou menos.
Lá pelas tantas, como lâmpada prestes a queimar, o corpo começa a ceder.
O luto diário se manifesta.
Todas as noites mal-dormidas de segunda a sexta emitem nota e exigem pagamento.
O espírito quer mais do que a matéria permite: abraçar o mundo com braços e pernas até o nascer do dia.
As pernas vacilam, os pés doem, o teto gira.
É sono, fome, tragédia.
Num canto, um beijo feliz.
No outro, o sorriso conformado do vice.
Lágrimas anônimas de fim de festa.
Todo renegado é indigente.
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
Coração enquanto lar
Meu coração
Casa humilde de poucos cômodos há tempos inabitados
Caindo aos pedaços como barraco pós-enxente
Mobília gasta do passar do tempo
Piso sem brilho, marcas de uso, abandono
As camas por fazer
As roupas por passar
O cachorro morreu, coleira na boca, esperando a dona
Os gatos fugiram de fome
No aquário, peixes putrefatos boiam
No jardim, pera, não tem jardim
Todo o álcool que ingeri pensando em ti armazenado na geladeira
O coração-lar paga o preço dos excessos
O pouco sangue que agita as paredes é triste e turvo
Panelas com sobras feito banquete para as moscas e outros seres escrotos
Os pratos de nossa última refeição juntos empilhados na pia sem água ou higiene
O chuveiro onde nos amamos, onde nos amávamos, pinga solitário feito o choro ao qual penso em me render todas as noites em que o seu rosto, o seu beijo, o seu tudo vêm ao pensamento
Se eu chorasse, estaria chorando agora
Micro-organismo facilmente amável
Passado dificilmente esquecido
Mas não volte
Não se importe
Já engoli a chave
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
Poesias #3
barra 10 pm
um vislumbre de céu em seus olhos
teu sorriso me leva além-mar
de textura suave a pele
que ao toque arrepia
e faz levitar
na tua fala o som é lembrança
saudade daquilo que nunca teremos
mal sabíamos nós
que já não éramos mais os mesmos
quando o argumento vacila
a palavra que falta
jaz no vento que sopra
grajaú 10 am
bonificado seja o meu senhor
que a duras penas, suor e salgado
curou a lepra do primogênito amado
dando-lhe a esperança como garantia estendida
de que nenhuma outra partiria seu coração e partiria sem direção até se entregar ao abraço de quem lhe é inferior
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
Carta de despedida do pau casamenteiro
Lá estávamos nós, one night stand com a bênção das suas amizades mais etílicas.
Pouco depois, não havia mais nós, apenas dois barbantes de pontas desgastadas; duas guimbas de cigarro como tantas outras sobre o asfalto de Botafogo.
De certa forma, compreendo.
Cansada de dar com a cara na porta fechada do meu peito, deste meia-volta rumo à segurança que só a mediocridade proporciona.
Você tinha pressa de ser feliz.
Eu não queria apressar as coisas.
Nunca quis.
Creio que você cedo ou tarde se pergunte o que poderia ter sido, pois desde então me indago constantemente sobre isso.
Eu sei como teria sido.
Melhor que não saibas.
Não desconstrua o mito.
A máscara não caiu pelo simples fato de nunca ter existido.
Me despeço com a certeza de que fui um bom passatempo.
Agora, tudo o que eu mais quero é que o tempo passe.
Já volto.
Só que não.
Faça parar.
terça-feira, 26 de maio de 2015
menos TOCs, mais toques
Eu quero a estabilidade do amor sem surpresas.
A tranquilidade do amor sem mistério.
Do amor que é amor desde o início.
Do amor que amanhece amando e cai no sono amado.
Do amor que sabe a hora de ir para o banco de reservas.
Eu quero menos TOCs e mais toques.
Eu quero que a rádio toque a nossa música favorita.
Quero que você toque para mim. Que se toque para mim.
Quero que nossa pele toque. Quero aderência. Magnetismo.
Não me importa se o lençol está sujo. Se a fronha está velha.
Não quero pressa para ir tomar banho.
Não quero o seu cu doce. Quero o seu cu sempre.
Quero te dar o amor que penetra. O amor que lateja.
E quero isto agora.
Amor que se adia é amor que se perde.
Amor que é amor não precisa esperar.
sábado, 2 de maio de 2015
Preludin
Eu quero aproveitar a oportunidade pra te agradecer principalmente pela sua presença na minha vida e tudo o que você me traz: calma, paz, alegria, carinho, cuidado, palavras lindas (que eu sempre presto atenção, enquanto viro os olhos sorrindo desacreditada).
— Eu... eu quero terminar com você.
— Por quê?
— Porque eu não estou apaixonada por você.
Eu gosto da maneira que você me inclui nos seus planos. Como você não tem medo de dizer o que pensa ou sente. Seu companheirismo me deixa mais surpresa a cada dia que passa. Eu te admiro em cada detalhe e procuro aprender com você a ser mais eu.
— Já separei as suas coisas. Seus livros, desodorante... Acho que não tem nenhuma roupa sua aqui.
— Se tiver, separa. Me avisa que eu venho pegar depois.
— Ok...
Obrigada por me escolher. Quero continuar contribuindo para que a sua vida seja tranquila, suave e feliz!
— Você não quer dizer nada?
— O que quer que eu diga mudará alguma coisa?
— Não...
— Então...
Beijos!
— Tchau.
(Parece clichê, mas é sincero.)
sexta-feira, 24 de abril de 2015
Duas sacolas
verifiquei que em duas sacolas cabem o concreto, o planejado.
cabe aquilo que jamais conseguiríamos.
cabem pontos de ruptura e uma penca de recomeços.
cabe a esperança de que a manhã seguinte cicatrize o dia que devia terminar logo!
muitos megas de canções de efeito peridural, que ao tocarem promovem verdadeira bagunça no pensamento.
infame este recurso, o shuffle — apaixona-se e desapaixona-se no modo aleatório, tal qual o tocador de mídia, que sempre pareceu escolher a dedo — do meio — a trilha sonora mais apropriada para cada momento.
tantos foram os versos que eu fiz nos intervalos da manhã, abdicando do pão com manteiga, do convívio dos colegas, do wifi liberado.
tantos foram os engarrafamentos.
celulares sem crédito ou bateria.
muito este universo conspirou — ora cúmplice, ora traiçoeiro.
e os ideais de futuro? a dois, a sós, inimigos íntimos, nós sabíamos, mas rejeitávamos burra e cegamente.
acomodação. ilusão.
não sabíamos o que queríamos, mas sempre queríamos o que não teríamos.
mas sorríamos.
e trepávamos. como trepávamos!
a química de dois amantes em eróticos tangrans.
nossa humanidade enquanto condição e característica.
duas sacolas pareciam ser muito.
até que vi o personagem de george clooney em amor sem escalas dimensionando a vida em uma mochila.
ele se fode no final do filme.
finais felizes: uma falácia?
amores improváveis não têm como durar uma vida toda.
o encanto da primeira impressão é perecível.
não se negocia a individualidade em casos extremos de amor-prisão.
um par de tênis, um par de chinelos, uma colônia, camisetas, dvds, um livro.
e um fio de cabelo seu, intruso, parasita.
um fio alien a emitir sinais em tempo real para que saibas o momento exato.
tudo isso coube nas duas sacolas.
as quais são como os sonhos: você pode sempre colocar no corredor.
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Poesias #2
Metáfora do homo canis
O homem imita o cão
A nível de gato persegue o rabo
Persegue o rato, homem canino!
Sálvia e saúva
O que há de melhor, milagreiro
Que a sálvia de variados aspectos
Feito cálice bilabiado aberto
Larga, achatada e estéril
O que dizer então da saúva
Carregadeira, operária, cabeçuda
Eu sou o teu macho, sabitu!
Tu és minha fêmea, tanajura!
Amor na noite
Uma bela moça
Um belo exemplar
Que de noite o coveiro
Vai namorar
A pá fica a postos
Para desenterrar
O corpo da virgem
Que está a repousar
Seus olhos fechados
Não páram de inchar
A boca que é roxa
Num eterno beijar
Um passeio além da cova
Nos braços do coveiro
Paixão fria e mórbida
No cemitério
Com cuidado ele a despe
Com carinho ele a gira
Prum lado e pro outro
Como se estivesse viva
Então oscula funesto
Um casal ao luar
Ele, um louco
Ela, defunta
quinta-feira, 9 de abril de 2015
Poesias #1
Seis meses de casado
Aferir
Compelir
Discernir
Pedir
Pedir
Insistir
Digerir
Agredir
Denegrir
Transgredir
Refletir
Repelir
Despedir
Progredir
Dormir?
Durmamos
Garage
Sombras
Temáticas
Elucidam
Decadência
Disforme
Zumbido
Um rock
Do demo
Balada
Veneno
Tomando para si as pobres almas das pobres madeixas de onde pinga o Neutrox
Há um longo caminho
até a linha
do trem
Balada
Zumbido
Um rock
Um trem
Primórdios da medicina mental
Louco
Sim
Mas só um pouco
Feliz quem compartilha
da felicidade de um louco
assim como eu
Louco
Mas por bem pouco
Não sou normal
Se normal eu fosse
Louco não seria afinal
E não escreveria poemas loucos
Tontos
Tortos
Muitos dirão que sou genial
Que por bem pouco mesmo
Não sou alguém normal
Mas é na loucura que me encontro
Ser louco é o meu normal
Em busca da loucura
Loucura ideal
Louco
Que nem um porco
Mas não um porco normal
Um porco louco
Que mesmo louco
Ainda é
Sobretudo
Pouco
quarta-feira, 8 de abril de 2015
Jon Secada
— lata tem de que?
— antarctica, brahma, itaipava...
— e garrafa?
— long neck ou 600?
— 600.
— só itaipava
nada como uma cerveja merda para uma noite merda.
o dia que boteco da mimosa tiver guinness, eu não saio mais de lá.
mas eu não tinha ido à mimosa comer puta. algumas eu não comeria nem se me devolvessem o dinheiro na saída.
imagino meu pau encolhendo de medo, torcendo para que eu não beba a ponto de enfiá-lo numa roubada.
o bar que escolhi, um inferninho no que meus amigos e eu batizamos mercadão de madureira, tinha cheiro de pastilha sanitária.
o chão molhado apontava para um vazamento. baratas no balcão. serviram minha itaipava num copo sujo de batom.
não reclamei. foda-se.
na tv pendurada na parede, jon secada cantava "it's just another day without you..." e eu fui transportado para dentro da canção.
o jon da tv em nada lembrava o dos clipes antigos. a cara encarquilhada feito solo árido me mostrou como o tempo podia ser, e era, implacável.
ver aquele velho cantando sobre estar um dia mais sem alguém me fez perceber como eu vinha errando nas escolhas.
a segunda garrafa de itaipava chegou. pedir para trocar o copo sujo foi a maior demonstração de amor próprio em tempos.
o show do jon já havia acabado e ninguém tinha notado. eu devia ser o único a estar prestando atenção.
prostrado de cerveja, fiquei assistindo o menu do dvd em looping ad eternum com aquele refrão dilacerante.
a cada repetição, uma lembrança. alternância entre tempos felizes e infernos astrais.
da mesma forma que sempre encarei a felicidade como consequência, sempre busquei um culpado para os fracassos.
já culpei deus, o diabo, amyr klink, frida, os signos.
já atribuí a responsabilidade à coisas que eu nem sei como funcionam.
são cipriano deve me odiar.
levei um ano e alguns salários para entender que simplesmente não fazia sentido.
a beleza de ser autodepreciativo, celebrando a solidão como se fosse uma conquista, o fato de estar à deriva como se fosse uma opção.
***
— acorda, bonitão — o despertar veio naquela voz rouca.
já estava amanhecendo.
meus olhos eram remela pura. custaram a abrir. não reconheci seu rosto, mas a cor de seu batom eu já havia visto naquela noite.
perguntou se eu queria usar o banheiro. eu disse que não. agradeci e saí.
faço um sinal, o táxi pára.
— cruz vermelha, por gentileza.
no dial, o inconfundível locutor de voz açucarada: "você ouviu jon secada com just another day. jb fm faltam quinze para as sete."
que livramento!
naquele exato momento eu fiz as pazes com deus.
(crédito da imagem: http://glo.bo/1MVQ3yt)
segunda-feira, 6 de abril de 2015
Macarrões coloridos
eu nunca tinha visto aquilo.
macarrões coloridos, que pareciam de mentira!
uns verdes, outros laranjas, outros, em menor proporção, na cor natural da massa.
não sei o porquê daquilo — pode ser apenas o corante —, mas fiquei de boca aberta e com água na boca.
fiquei tentado a experimentar mesmo cru (sei lá se o gosto é diferente!)
na panela, imersos n'água, eles brilhavam; eram insígnias alimentícias.
um fio de azeite torna-se auréola sobre o que pareciam os cachos de um anjo punk rock.
um pouco da cor se perde conforme a fervura — assim como o cabelo tingido desbota a cada lavagem.
me aproximo do fogão para ver e ouvir o borbulhar.
o cheiro da massa cozida dá match com o estômago que ronca mais de ansiedade que de fome.
— prefere al dente?
sua voz me faz sair do transe.
sorrio. você sorri de volta. acho que não entendeu o que estava acontecendo.
sinto-me relaxado, descansado e bem.
e salvo.
o almoço finalmente está servido.
— deixa que eu pego o suco na geladeira — diz você, a minha mulher, o meu amor.
domingo, 5 de abril de 2015
Todo Santos
A tarde está quente.
O papo começa a esquentar.
A tendência é esquentar ainda mais.
Qual será o nosso ponto de fervura?
O que você chama de jogo, eu chamo de atração — sim, eu sempre tenho resposta para tudo.
Mesmo quando eu preferia não ter.
É agora que eu te mordo.
Sei que você gosta.
Pescoço e barriga.
A regra manda você morder de volta — what comes around goes around, no pingue-pongue, assim como no amasso.
Quando as mordidas cessam, outras ferramentas entram em ação.
"Você não é de atitude, então acate as minhas ordens."
Comece pelo ouvido. Pescoço. Seguro você pela nuca. Dedos por entre os seus cabelos. Seu queixo é o antílope indefeso à minha investida leonina.
Algo se enrijece. A curiosidade te leva a conferir.
Baixo as alças da sua blusa com a boca. Abro seu sutiã com a milenar técnica dos dois dedos.
"Tenho vergonha, ser mãe não me deixou ilesa."
Olho contemplativo para os peitos que estou prestes a cair de boca e alma.
Sinto um calor vindo de dentro de você. (Alguém chame os bombeiros!!!!)
"Estou envergonhada."
"O que é a vergonha se não sentimento subalterno a outros?"
"Ela não os elimina."
Enquanto você discorda, eu te beijo na boca com vontade, com os dedos percorrendo suavemente as suas costas.
Você me olha com aprovação.
Chego lá embaixo. Você se arrepia.
Eu rio orgulhoso. Baixa oxigenação cerebral (?)
Você o segura com força. Sente cada latejo. Me diz algo que me faz pirar.
Estou feito uma pedra, mas ainda há muito a explorar no mundo dos sonhos que é o seu corpo.
Neste momento, somos sabor, textura e aroma.
"Não sou boa com palavras."
"Na cama, você é a minha coautora."
O botão da sua saia se abre de repente — providência divina atuando em favor de uma tarde memorável?
Você tira a saia devagar. Encaro isso como um convite. Reparo nas pernas que sempre me chamaram a atenção.
Puxo-te pelo elástico da calcinha. Assustada, você sorri e ri. Mais mordidas na barriga já marcada e úmida.
Voltas para cima de mim arrastando-te desde o queixo até o ventre pelo totem que se ergue por baixo da bermuda.
Sua cara de malvada me deixa vidrado. Ansioso pelo seu bote hábil com as mãos e feroz com a língua, que vagueia silenciosa pelas minhas orelhas deixando um rastro molhado.
"Sinta-se envaidecida. Tudo isto é mérito teu!"
"Estou envergonhada…"
"Não é o que as pontas dos meus dedos dizem…"
"Você é tão divertido."
"Você é de tirar o fôlego!"
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Eu monitoro
o silêncio prevaleceu desde o derradeiro encontro.
naquela noite, nós dois, um cadáver anunciando a própria morte, revendo os termos e condições como se fôssemos produto ainda na garantia.
mas já era, já eramos, tudo mudou, todos sabíamos.
dormi decidido a abolir o caráter definisório; se é pra mudar, muda direito, porra.
acordei sábado às dez tomado por uma espécie de amor próprio platônico.
o nescau estava mais doce, a torrada mais crocante, o pouco de sol que a persiana permitia a entrada tinha um brilho sem igual.
o celular carregado, as primeiras notícias do fim de semana.
a curiosidade toma conta.
whatsapp. sua foto mudou. seu status também.
facebook. não estou mais na sua lista, mas ainda posso vê-la.
(linkedin. isso você nunca teve. até hoje não sei se és autônoma, freelancer ou apenas uma pétala cuja brisa carrega por aí.)
sei com quem sai, para onde vai, o que tem feito, comprado.
vejo quem te marca em fotos que eu duvido que tenham passado pelo seu crivo.
(se bem que a gente perde um pouco a noção quando está sozinho e insatisfeito; liga o foda-se pro cabelo suado, pro olho fechado, pra boca monstruosamente aberta, pro ângulo desfavorável onde a pochete diz olá.)
leio manchetes que me trazem à mente a reação mais óbvia que você teria:
rock in rio confirma artistas que eu sei, você daria um rim para ver de perto.
morre aquele cantor cuja música um dia fez parte da nossa trilha sonora entre quatro paredes.
novo método contraceptivo chega ao mercado e eu já imagino você esperando a farmácia abrir.
aí a sua foto muda, o seu status também.
eu sei que você se preocupa também; eu sei que você se pergunta também.
a curiosidade é foda, mesmo quando o interesse é nulo.
o monitoramento pelo monitoramento; estar em dia, dar aqueeela espiadinha.
me divirto tentando decifrar o que as suas metáforas querem dizer, o porquê de teres postado tal música, dando ênfase a tal trecho da letra.
os sinais me levam a crer que está tudo bem e isso é bom pra caralho.
nunca quis que a vida lhe castigasse por mais que você tenha castigado o meu coração.
desde a manhã de sábado que sucedeu o ponto final mais dolorido da minha vida, sou apenas amor (ainda que amor sabático, com chuviscos e ruídos, mas amor amor, do tipo que reveste)
nova foto, novo status.
fotos em preto e branco e sua dramaticidade.
eu estava enganado: você ainda está na merda.
não procuro a confirmação de que sou o causador.
de longe, e nunca em altos brados, torço para que chegues ao fundo do poço.
e de lá dê o impulso de volta para o topo.
(só não conte comigo na superfície: eu não estarei lá.)
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Allegro pela metade
(part. esp. Backspace)
acordei decidido a encontrar alguém, mas não você.
acordei decidido a encontrar alguém, mas não você.
pois que, na verdade, você eu já encontrei; você eu já sei onde encontrar.
em cada fechar de olhos, no ecrã da mente, em link ao vivo com o coração.
pois cada ml de sangue carrega o teu calor e eu sinto você em cada camada de tecido.
você está na em cada nota que ressoa em vibrato, tamborilante colibri.
não me sinto mais eu, pois tudo o que me sobrava, o corpo expirando, tu tornaste teu refém.
não te pedirei para abrir mão do mérito de ter conseguido me alcançar lá no fundo, a tempo de reverter o inevitável.
quisera eu agora ter perícia, repetir sua façanha, evitar o irreversível.
a esperança é como o colarinho no chopp: desaparece ao primeiro gole.
me chame de piso, parede, cama, mesa, aquecedor.
quando lhe faltarem os pertences, renda-se! surpreenda-me!
me chame de amor.
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