segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Quando o sol invade os olhos


Em 2005, eu não era como a maioria dos colegas era.
De fato, eu meio que personificava o estereótipo que eles mais repudiavam.
Enquanto todos eles tinham suas mochilas da Jamf, eu preferia minha mochila jeans com patch do Guns N' Roses costurado.
Nike Shox? Detestava. Preferia os Olympikus que, além de tudo, eram muito mais baratos — embora às vezes fosse difícil encontrá-los no tamanho 45.
Toda aquela indumentária praiana, floral, Posto 9... nada disso me atraía.
Muito mais maneiro aquele jeans rasgado nos joelhos, a camiseta do Iron Maiden já cinza de tanto lavar — nunca fedendo, importante frisar.
Talvez por isso eu me sentisse um expatriado, ovelha-negra, alívio cômico.
Talvez por isso eu jamais tenha me sentido, de fato, integrado ao ambiente no qual alguns tentaram me inserir.
"Para de usar só preto", diziam. "Você quer pegar mulher ou não quer?"
Óbvio que queria. Uma em especial.
Ela achava "muito f***" (com os * mesmo) eu ouvir as bandas que "meu irmão mais velho ouve".
Ela achava "legal" eu levar o violão para a escola enquanto a maioria tentava se afirmar jogando bola ou fumando escondido no colégio — não que ela desprezasse os atletas. Na verdade, a paixonite dela era justamente um dos craques do time, descobriria da pior maneira possível mais tarde.
Ela, então, me convidou para ir ao seu aniversário, que seria realizado num evento de nome nada motivador: Rio Playsson Party.
Imaginei logo toda aquela "rapeize" Redley, cabelo com parafina, suas gírias e maneirismos, contando vantagem sobre aqueles que não se enquadrassem no padrão que havia se estabelecido.
Que merda.
Mas o pior de tudo não seria ter de ser alvejado pelos olhares de lentes de contato e imaginar os julgamentos que estariam sendo feitos. O pior seria encarar três horas e pouquinho de três bandas que só de ouvir os nomes já me embrulhavam o estômago. Entre elas, o tal do Forfun.
Ela adorava o Forfun. O MSN dela denunciava tamanha paixão. As comunidades das quais fazia parte, idem.
"Felicidade é um fim de tarde olhando o mar".
Eu achava isso o maior lero-lero.
Tomei um ódio particular dessa música em especial quando a vi beijando outro cara (mencionado acima) no maldito evento.
"Os R$ 15 mais mal-gastos da minha vida", por tempos sustentei tal afirmação.
Por tempos, culpei o Forfun pelo meu fiasco na Rio Playsson Party.
Dez anos se passaram. Soube que o Forfun está realizando uma turnê de despedida. "Eles duraram esse tempo todo?", pensei.
Coincidência ou não, reencontrei aqueeela garota na rua dia desses.
Os anos só acentuaram nossa incompatibilidade, já bastante evidente na época da escola e que só eu não enxergava.
Por outro lado, a letra de "Hidropônica" passou a fazer total sentido.
Um mergulho no mar de Ipanema, com o céu meio nublado; o mergulho da purificação, da restauração; a sensação de que todas as impurezas da minha alma foram diluídas na água salgada.
O peso do mundo que carregava em meus ombros tornou-se areia a repousar sob meus pés.
Olhei para o céu, o sol se pondo no horizonte, um ou outro raio de sol perfurando as nuvens espessas da chuva que estava por vir.
Mirei as ondas em seu espetáculo soberbo e sonoro.
O Forfun estava certo o tempo inteiro.
Felicidade é um fim de tarde olhando o mar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário