terça-feira, 17 de novembro de 2015

Golpe fantasma de fênix


Nos conhecemos na antiga CA; eu já com seis anos, ele, ainda com cinco.
Era recreio, éramos de turmas diferentes, nosso primeiro contato foi numa troca de figurinhas do álbum dos Cavaleiros do Zodíaco — não aquele primeiro, que tínhamos que colar as figurinhas com cola, o seguinte, do filme, com figurinhas autocolantes e uma ou outra holográficas, que na troca valiam duas "normais".
Aliás, foi por violar essa "regra", aceitando somente uma figurinha "normal" em troca de uma holográfica, que percebi que poderíamos ser amigos.
A primeira vez que brincamos juntos foi dias depois. De Cavaleiros do Zodíaco. Em nossa fase de testes, tivemos nossa primeira briga. O motivo: nós dois queríamos ser o Ikki.
No ano seguinte, as duas turmas da CA viraram uma hiper-turma de primeira série. Lá estávamos eu e ele, juntos, na mesma sala. O álbum da vez era o do Brasileirão daquele ano. Estabelecemos uma sociedade na coleção: completaríamos um álbum juntos.
Os critérios de troca foram atualizados: figurinhas de craques — Romário, Bebeto, Sávio — tinham o peso das holográficas trazendo os escudos dos clubes.
Adorar, entender e colecionar futebol não resulta em Bola de Ouro. Na educação física, dois pernas de pau, sempre torcíamos para cair no mesmo time. Era a garantia de boas risadas. Secretamente apostávamos quem seria o primeiro a ser expulso por uma falta violenta.
E por falar em ser mandado para fora do jogo, foram muitas as suspensões ao longo do primário por aprontarmos além da conta — ainda que nossos boletins não refletissem isso.
Cuidávamos um do outro e nos ajudávamos.
Eu, fera em história, geografia e idiomas dava uma força para ele, gênio das exatas e biológicas, justamente o meu ponto fraco.
Começamos a frequentar as matinês juntos. Íamos ao cinema com outros amigos e amigas. Compartilhamos um bocado das melhores e piores experiências da pré-adolescência.
Ele estava presente no meu primeiro porre. Eu estava presente no enterro da avó dele.
Foi para mim que ele ligou quando levou o primeiro pé na bunda. Foi o pai dele que me deu meu primeiro emprego.
Cumplicidade.
Amizade.

Sou daqueles que acredita nos propósitos da vida.
Nada acontece por acaso.
A vida se encarrega de reduzir a pó quando há necessidade.
"Das cinzas nascem as flores", diz a minha vó.
Houve um tempo em que eu comparava nossa amizade a de Dalton e Wade em Matador de Aluguel, ou a de Forrest e Bubba em Forrest Gump.
Fomos, assim, amigos até começarmos a discordar política e religiosamente.
Em tempos de acalorados debates virtuais, opiniões divergentes expoem a fragilidade do atual conceito de amizade: imunodeficiente, que deteriora a menor exposição ao mau tempo, e faz tanta falta quanto pijama em lua de mel.
Não me surpreendeu quando visitei seu perfil e confirmei que ele havia desfeito a "amizade" comigo.
O "desfazer amizade" no Facebook foi mera simbologia; nós já havíamos deixado de ser amigos há muito tempo.
Tentei ligar para ele no seu aniversário. Chamou até dar caixa postal.
Ele entrou no mesmo ônibus que eu estava. Passou direto, sentando-se afastado de mim.
As últimas eleições soterraram a nossa história.
Nas próximas terá o meu voto ao candidato que me assegurar que não perderei mais nenhum amigo.

Reunião dos ex-colegas de colégio, alguns dos quais brincavam de Cavaleiros do Zodíaco comigo e com meu ex-amigo.
Lá pela vigésima rodada, a mudança radical do meu ex-amigo — descobri que não fui o único a ser deletado do Face e da vida dele — veio a baile.
— Hoje em dia vocês não brigariam pelo papel de Ikki, Marcelo. Dizem por aí que ele agora está mais para Shun de Andrômeda.
A mesa sacou a referência e caiu no riso.
Menos eu. Agora, mais do que nunca, eu continuaria sendo o Ikki.
Onde quer que você esteja, seja forte, Shun. Meu eterno irmãozinho.

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