quinta-feira, 12 de novembro de 2015
R.I.P. Celo
Hoje pela manhã foi encontrado o meu corpo.
Não se sabe ainda a causa da morte.
A bem da verdade, muitas coisas podem ter feito meu coração parar de bater.
Ele bebia demais, comia demais, trabalhava demais.
Ele dormia de menos, se exercitava de menos, era responsável de menos.
A vida lhe foi impiedosa. Não lhe restava mais nada. Suicídio?
"Seu dinheiro não lhe trazia felicidade" — mas a pobreza também não me traria porra nenhuma, né?
Mas isso não importa.
Já confinado, a caminho do solo onde me aguardam os vermes, procuro imaginar o que estariam dizendo aqueles que, permanecendo no reino dos vivos, terão de lidar com a minha ausência.
O choro nem sempre transparece a verdade oculta dentro de nós.
Por favor, não ousem me beatificar.
Não atingi a santidade em vida, de que vale a idolatria na morte?
Permitam-me escutar sua sinceridade.
Cadáver não sabe o que é decepção.
"Marcelo me iludiu", podem pensar uma ou outra.
"Eu o iludi, e agora que ele está morto, jamais me perdoarei." (Esta, com certeza, está combinando bar com os amigos para depois do meu enterro)
"Marcelo era emocionalmente imaturo!"
"Marcelo se achava a última bolacha do pacote!"
"Egocelo sofria de transtorno de autorreferência."
"Makotop gostava mais dos seus discos que de qualquer outra coisa."
"Magordo quase nunca vinha ver o afilhado."
"Marcelo era o melhor parceiro no Metal Slug."
"Marcelo era o pior adversário no Magic."
"Marcelo tocava violão com paixão, apesar de não tocar porra nenhuma."
E os posts no Facebook?
"Makothieeeeeeeeee bor gue vose tia gue morreeeeeeeeeeeeee????"
"R.I.P. Celo"
"A Hardlands não será a mesma sem você."
"Fly to the angels, Celinho."
Fora as fotos com textão e os clipes de músicas que, eventualmente, fizessem um ou outro lembrar de mim.
"Este Kick Axe é para você, Makotinho."
"Marcelo Tuff [banho] vai deixar saudade."
Vislumbro aqueles que, em seu silêncio, vêem-se incapazes de perdoar Deus, as circunstâncias ou eu mesmo.
Tudo isso parece me comover de uma maneira estranha.
Em vida, eu provavelmente teria chorado já.
Mas no silêncio da eternidade, não há espaço para lágrimas.
Ao término da oração, uma voz irrompe em meio à capela:
"Tremendo de um filho da puta, já foi tarde!"
O corpo morto sorri.
Fiz um bom trabalho.
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