sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Encarar de frente


Fui ao teu encontro.
Primeiro encontro desde muito tempo.
Aceitei vê-la mais por aceitar do que por vontade incontrolável de materializar a situação que há tempos venho evitando.
Talvez o estoque de desculpas tenha esgotado.
Torci pelo imprevisto. Mas não rolou nenhum.
Na verdade, até fui liberado mais cedo — o que nunca ocorre quando é para ir ver jogo de futebol, por exemplo.
Dez minutos caminhando do escritório até o ponto de ônibus. Um ventinho sem-vergonha, mas o bastante para não suar.
A espera no ponto foi menor que de costume. O ônibus veio vazio. Tinha ar condicionado. Cobrador e motorista cumprimentaram de volta. Bilhete Único passou de primeira.
Trânsito livre mesmo nas ruas mais ingratas do trajeto.
Desço no metrô, estação no meio da linha dois, vagões tipo latas de sardinha... que nada. Uma beleza. Assento VIP sob a ventilação. Nada de camisa grudada no corpo hoje.
As típicas interrupções, "estamos aguardando a liberação do tráfego à frente" etc. passaram longe daquele trem blindado contra a superlotação.
Viagem tesuda, surpreendentemente rápida; suficientemente intrigante.
O que estaria à minha espera?
Seria todo esse cenário de sonho, na verdade, calmaria antes da tempestade?
Bonança pré a tempestade que é a vida quando resumida a você e eu?
Alguém me ajude.



— você não mudou nada — disse ao chegar.
— e devia ter mudado? — respondeu com semblante angelical que tantas vezes me amolecera no passado.
um passado até recente. recente o bastante para ativar a memória sensorial. o perfume prada, misturado ao hálito de menta, da pastilha usada como disfarce para o cheiro de cigarro que os dentes levemente amarelados não negavam, vinha sendo consumido aos montes nos últimos meses.
— trouxe isto para você — continuou.
preferi não abrir. agradeci. guardei na mochila.
permaneci estático. na minha mente, um cais de porto, noite estrelada; tudo o que fora dito há exatos sete anos; nós dois sob os olhos dos pescadores que regressavam do horizonte.
naquele momento, éramos ela e eu, banhados em gasolina e, inconscientemente, motivados a produzir a fagulha que causaria um incêndio de enormes proporções.
eu a sentia me olhando. sabia no que ela estava pensando. ela tinha algo a dizer. tenho certeza.
seguindo o que já foi a ordem natural das coisas, pousei a mão sobre sua perna e senti suas duas mãos me segurando.
— apenas não — disse.
acontece que eu já tinha ido.
ido embora.
de sua vida.
quando dei por mim, aqueles olhinhos castanhos e pidões haviam se perdido no orvalho.
ao prevenir a tempestade, ganhei uma visão embaçada do que já considerei ser meu futuro.
dei sinal para o táxi que me tirou da página mais extensa que os céus já haviam escrito na minha vida.