quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017



Eu ainda era criança quando descobri que minha vó mentia a idade para mim.
Ela dizia ter 10 anos a menos do que tinha.
O porquê disso ou eu não sei, ou eu não lembro.
Entretanto, nunca desconfiei que ela fosse mais velha do que dizia ser.
Minha vó nunca usou da idade como argumento para pisar no freio ou viver com menos intensidade a experiência que é criar um neto.
Ela me pegava pelo braço e descia comigo as ruas arborizadas do Grajaú até a pracinha, onde eu brincava, suava e me sujava até não poder mais.
No caminho, ela me apontava a beleza nas pequenas coisas: as florzinhas amarelas no canteiro, os passarinhos que cantavam, os raios de sol que venciam a barreira formada pelas copas das árvores para iluminar nosso caminho.
Minha vó sempre foi de enxergar o belo, o divino, a dádiva nos detalhes.
Outro dia mesmo eu a flagrei sentada em sua cama, um livro no colo, olhando pela janela, atenta ao canto dos passarinhos.
Ela apontou em direção ao telhado, apresentou o passarinho como seu amigo e disse que este sempre vinha visitá-la ao entardecer.
Por alguns instantes, o ruído do mundo que gira sobre as minhas costas baixou o volume e eu pude ouvir o amigo da minha vó cantar.
Minha vó foi quem me ensinou a pegar ônibus e a fazer reverência na frente da igreja.
Minha vó me ensinou a jogar futebol de botão — me vence até hoje! — e me deu meus primeiros vídeogame e violão.
Minha vó, minha maior fã, nunca me desencorajou de fazer algo que eu realmente quisesse fazer — foi assim com a música, é assim com a escrita e com o trabalho.
Nos olhos verdes e aquarianos da minha vó, eu encontro aceitação, ânimo, preocupação, segurança e paz — sentimentos tão legítimos quanto a minha felicidade por ela estar comigo, completando mais um ano de vida.
À minha vó, os meus parabéns e o meu muito obrigado.
Ao seu amor e dedicação, retribuo com mais amor e com toda a gratidão que me couber.
Por fim, eu não vou revelar a sua idade — vou me ater a dizer que ela ainda parece ter 10 anos a menos do que tem.
E sempre parecerá.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017


Ouve "Ashes to Ashes", sua música favorita do Faith No More, ao longe.
Sente o celular vibrar dentro de si.
Deixa tocar e tocar e tocar.
A insistência de quem quer que seja é convertida num orgasmo breve porém sonoro.
Ela retira o aparelho de dentro da vagina.
Remove a camisinha que o envelopa e a descarta.
Vê nas ligações perdidas quem foi o responsável pelo gozo daquele anoitecer de terça feira.
Número desconhecido.
Esse anonimato a fascinava. 
Podia ser qualquer um.
Homem, mulher, uma máquina.
A intençao podia ser qualquer uma.
Não importava desde que o telefone vibrasse com a intensidade que a derrete.
O ritual é sempre o mesmo.
Chega em casa morta de cansaço após um dia movimentado na assessoria.
Sua equipe reduzida, o assédio moral de sempre, pautas frias para tapar buracos.
Tira a roupa, se olha no espelho, observa os seios que lhe abriram as portas para tantos empregos.
Analisa seu corpo em busca de justificativas para tantos relacionamentos fracassados.
Vira de costas, inclina-se para a frente, observa seu ângulo predileto.
Gosta da maneira que seu sexo se destaca, se projeta, destoa em cor e textura do restante de seu corpo.
Ela tem tudo o que precisa.
Senta-se no sofá que não foi quitado. 
O espelho é seu cameraman.
No móvel ao lado, estoque infinito de seu preservativo favorito.
Nada de aromas — o cheiro do látex a embriagava.
O celular, novinho em folha, película recém aplicada.
Samsung e Jontex em suas mãos parecem feitos um para o outro.
Abre as pernas apenas o suficiente.
Introduz o J2 encapado na vagina cuja umidade faz brilhar.
O acomoda dentro de si numa espécie de parto inverso.
E espera.
São sete horas.
Alguém há de ligar.