Ouve "Ashes to Ashes", sua música favorita do Faith No More, ao longe.
Sente o celular vibrar dentro de si.
Deixa tocar e tocar e tocar.
A insistência de quem quer que seja é convertida num orgasmo breve porém sonoro.
Ela retira o aparelho de dentro da vagina.
Remove a camisinha que o envelopa e a descarta.
Vê nas ligações perdidas quem foi o responsável pelo gozo daquele anoitecer de terça feira.
Número desconhecido.
Esse anonimato a fascinava.
Podia ser qualquer um.
Homem, mulher, uma máquina.
A intençao podia ser qualquer uma.
Não importava desde que o telefone vibrasse com a intensidade que a derrete.
O ritual é sempre o mesmo.
Chega em casa morta de cansaço após um dia movimentado na assessoria.
Sua equipe reduzida, o assédio moral de sempre, pautas frias para tapar buracos.
Tira a roupa, se olha no espelho, observa os seios que lhe abriram as portas para tantos empregos.
Analisa seu corpo em busca de justificativas para tantos relacionamentos fracassados.
Vira de costas, inclina-se para a frente, observa seu ângulo predileto.
Gosta da maneira que seu sexo se destaca, se projeta, destoa em cor e textura do restante de seu corpo.
Ela tem tudo o que precisa.
Senta-se no sofá que não foi quitado.
O espelho é seu cameraman.
No móvel ao lado, estoque infinito de seu preservativo favorito.
Nada de aromas — o cheiro do látex a embriagava.
O celular, novinho em folha, película recém aplicada.
Samsung e Jontex em suas mãos parecem feitos um para o outro.
Abre as pernas apenas o suficiente.
Introduz o J2 encapado na vagina cuja umidade faz brilhar.
O acomoda dentro de si numa espécie de parto inverso.
E espera.
São sete horas.
Alguém há de ligar.

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