quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
Vamos tretar
Tudo começa com um tropeço.
Do deslize, o desentendimento.
Está no sangue do animal se engalfinhar; é instintivo.
A versus B num embate ideal.
Até que o privado torna-se público.
Espetaculariza-se o desentendimento.
Um cisco no umbigo vira um Megazord.
Rola aquela mobilização virtual.
Os discursos tornam-se venenosos.
As palavras feito adagas.
Chuva de indiretas.
Viralizam-se o link, o print.
A bandeira do anti-fulano é hasteada.
A tragédia ganha torcida organizada.
Cada Gepeto esculpe a história conforme seu interesse.
A verdade a ninguém pertence — apesar de todos reivindicarem sua posse.
Ninguém quer saber quem morreu desde que também possa chorar.
Busca-se a supremacia na aprovação da maioria.
Assumir uma posição equivale a um all-in (leia mais em https://www.pokerstars.com/br/poker/games/rules/).
Não saber ou não opinar é visto como falta de personalidade.
Em cima do muro não é lugar de prestígio.
O silêncio é o assento do fundo no coletivo da treta.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
Ao passado o que pertence ao passado
Fotolog.
Nem lembrava que existia.
Ninguém lembrava.
Até que saiu do ar.
Repercutiu.
Priou cânico.
Fotos, comentários, tudo tinha ido para o saco.
A comoção foi tamanha que o suporte do Fotolog deu uma colher de chá para seus (ex-)usuários permitindo-os resgatar o conteúdo.
Temos todos até dia 20 deste mês para fazê-lo; do contrário, adeus museu virtual.
Não o farei. Não resgatarei coisa alguma.
Minha última postagem no Fotolog data de 4 de julho de 2010, quando a plataforma já estava gasta e prestes a ser deixada de lado.
Na foto, eu magro, camiseta do Poison, guitarra em punho; clicado em pleno ensaio por uma pessoa então muito próxima que sabe-se lá que fim levou.
Era a foto de número nove do meu Fotolog.
Nove fotos postadas em quatro anos.
Só quem havia criado um Fotolog e perdido a senha no mesmo dia tinha menos coisas do que eu lá.
Resolvi investigar.
Em menos de vinte minutos reuni algumas pérolas de sabedoria que resumem bem no que consistia meu roto Fotolog.
Pérolas essas assinadas por um Marcelo que não sabia dimensionar o tamanho e a importância das coisas.
Uma foto em preto e branco, uma expressão pesarosa. Título da postagem: Já vai tarde, 2009.
No corpo do texto, que começa com um "Tenho muito a dizer, mas pouco saco para escrever", destaca-se o sofrimento juvenil motivado por sucessivas decepções amorosas.
Como se aos 19, eu já soubesse o que era o amor.
Como se aos 19, qualquer um soubesse qualquer coisa que fosse sobre o amor. Sobre a vida.
Um ano de "altos muito altos e baixos muito baixos, sem meio-termo" foi o 2009 do Marcelo fotologger.
Entre os "altos muito altos", uma viagem a Uberlândia-MG, com direito a postagem de agradecimento aos amigos pela hospitalidade e a promessa de um regresso no ano seguinte.
Eu nunca mais pus os pés na cidade.
Na categoria dos "baixos muito baixos", uma segunda-feira chuvosa de julho, me lamentei por não estar passando o aniversário da """amada""" ao lado dela.
A tristeza perde o peso à medida que o tempo passa; como uma Polaroid que desbota com o passar do tempo.
Na foto seguinte, as pessoas que eu considerava mais importantes na minha vida. Todo mundo sorrindo para o garçom fotógrafo da pizzaria.
(Um me excluiu das redes sociais e da vida por causa da namorada; outro não suportou ver a ex se tornando mãe e virou um hermitão urbano. Uma, após aderir à esquerda festiva, rompeu laços com todos que não assinassem embaixo de seu posicionamento político; outra mudou de estado e a distância geográfica exerceu seu papel.)
Mais adiante, uma foto com uma lata de cerveja na mão e uma citação de Napoleão Bonaparte: "Nada é mais difícil e, portanto, tão precioso, do que ser capaz de decidir."
A cerveja era um latão de Itaipava. Eu juro que os anos me ensinaram a decidir por coisas melhores.
Curiosamente, é na postagem inaugural do meu antigo Fotolog que encontro, nas palavras de Antoine de Saint-Exupéry, o motivo pelo qual não perderei meu tempo salvando fotos e textos para a posteridade: "Viva o hoje, pois o ontem já se foi e o amanhã talvez não venha."
Ao passado o que pertence ao passado.
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