quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Juntos na solidão


Enquanto estive longe, outro esteve onde eu gostaria de ter estado.
Antes, eu me divertia fazendo de conta que você era solteira.
Agora, tenho um lembrete vivo de que você é casada.
Esteja comigo para mais um almoço, mais um abraço, mais um plano infalível.
Vamos conquistar o mundo, juntos, esta noite.
Ainda que juntos na solidão.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Sobre rissoles e Goo Goo Dolls


Começou a rolar "Estranged" no toca-fitas do Monza tubarão.
"Old at heart, but I'm only 28, and I'm much too young to make love break my heart."
Refleti.
Ele já o fizera.
Já partira o meu coração.
O amor.
Algumas vezes.
A primeira vez foi aos 16.
Ela tinha 15. A mecha cor de rosa destacava-se em meio àquele loiro de farmácia. Seus olhos tenros pediam lápis. Seus lábios naturalmente avermelhados dispensavam batom. Sentava-se ao meu lado na escadaria que dava para o pátio do colégio. Ouvia atenta e calada os poucos acordes que eu sabia no violão.
Me apaixonei pela atenção que a mim dispensava. O "garoto do violão" tende a ser o expatriado.
Soube que sua canção favorita era "Iris". Goo Goo Dolls, banda chata de um hit só: este. A música era tema de Cidade dos Anjos, um dos filmes responsáveis por plantar em mim a certeza de que, no fim das contas, dá merda.
E com esta menina, deu.
Caprichei nos preparativos: jeans novos, tênis impecavelmente limpo, Drakkar Noir.
Na ausência da barba, o cabelo por cortar era o charme.
Tocou o sinal, saí da sala de aula triunfante, violão nas costas.
Sentei-me no degrau de sempre. Ela sentou-se minutos depois. Não dispensava o risole da cantina no recreio.
Havia praticado a porra da música por horas a fio. Em tempos pré-YouTube, recorri ao VHS que havia gravado da MTV. Tentava tocar junto com o clipe. No primeiro erro, rebobinava até o começo e tentava de novo. Fui das duas às sete assim.
Até que consegui. Uma mísera vez. Aí me concedi permissão para ir ao banheiro devolver a perna do saci.
Seu olhar dócil mirava o tampo escuro e envernizado do violão. Era um Michael da linha mais baixa-renda que existia. Um pau com cordas, para ser sincero.
Seus lábios brilhavam da gordura do rissole. Sua boca, um céu cujas estrelas eram resíduos de empanado que eu faria de tudo para irem de encontro ao meu paladar.
Toquei em seu ombro, ela se virou. Olhou-me com aqueles olhos delineados de preto. Um traço sutil que lhe conferia um semblante maduro.
"And I give up forever to touch you..."
Naquele momento éramos eu e ela. Na minha cabeça, dançávamos ao som da valsa.
À medida que prosseguia cantando e tocando, notava certa inquietação tomando conta de seu rosto.
À medida que eu avançava em minha pretensão musical, seu rosto se torcia como se levasse um choque elétrico.
"AND I DON'T WANT THE WORLD TO SEE ME..."
Ela se levanta. "Você canta mal para caralho, hein? Tá doido!"
E se vai.
E se foi.
Para sempre.
Até semana passada, quando a encontrei.
De longe parecia ser mesmo ela: o tom platinado no cabelo, só que sem a mecha que outrora me cativou.
Mas estava uma bola.
Fiquei matutando se poderia ser, tentando estabelecer o paralelo entre a doçura do passado e a adiposidade do presente.
Quando pediu um rissole no balcão, não tive dúvidas: era ela.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Noite feliz


Padrões de luzes e cores pelo chão.
Estranhos manequins fugindo do luto diário, movidos por música e álcool.
Bocas abertas, olhos fechados, acende-se um cigarro.
Apaga essa porra, diz o segurança, feito capitão-do-mato ao encontrar um escravo fugitivo.
O ritual se repete, reinicia-se a cada cinco minutos ou menos. 
Lá pelas tantas, como lâmpada prestes a queimar, o corpo começa a ceder.
O luto diário se manifesta.
Todas as noites mal-dormidas de segunda a sexta emitem nota e exigem pagamento.
O espírito quer mais do que a matéria permite: abraçar o mundo com braços e pernas até o nascer do dia.
As pernas vacilam, os pés doem, o teto gira.
É sono, fome, tragédia.
Num canto, um beijo feliz. 
No outro, o sorriso conformado do vice.
Lágrimas anônimas de fim de festa.
Todo renegado é indigente.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Coração enquanto lar


Meu coração
Casa humilde de poucos cômodos há tempos inabitados
Caindo aos pedaços como barraco pós-enxente
Mobília gasta do passar do tempo
Piso sem brilho, marcas de uso, abandono
As camas por fazer
As roupas por passar
O cachorro morreu, coleira na boca, esperando a dona
Os gatos fugiram de fome
No aquário, peixes putrefatos boiam
No jardim, pera, não tem jardim
Todo o álcool que ingeri pensando em ti armazenado na geladeira
O coração-lar paga o preço dos excessos
O pouco sangue que agita as paredes é triste e turvo
Panelas com sobras feito banquete para as moscas e outros seres escrotos
Os pratos de nossa última refeição juntos empilhados na pia sem água ou higiene
O chuveiro onde nos amamos, onde nos amávamos, pinga solitário feito o choro ao qual penso em me render todas as noites em que o seu rosto, o seu beijo, o seu tudo vêm ao pensamento
Se eu chorasse, estaria chorando agora
Micro-organismo facilmente amável
Passado dificilmente esquecido
Mas não volte
Não se importe
Já engoli a chave

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Poesias #3


barra 10 pm

um vislumbre de céu em seus olhos
teu sorriso me leva além-mar
de textura suave a pele
que ao toque arrepia
e faz levitar

na tua fala o som é lembrança
saudade daquilo que nunca teremos
mal sabíamos nós
que já não éramos mais os mesmos

quando o argumento vacila
a palavra que falta
jaz no vento que sopra


grajaú 10 am

bonificado seja o meu senhor
que a duras penas, suor e salgado
curou a lepra do primogênito amado
dando-lhe a esperança como garantia estendida
de que nenhuma outra partiria seu coração e partiria sem direção até se entregar ao abraço de quem lhe é inferior

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Carta de despedida do pau casamenteiro


Lá estávamos nós, one night stand com a bênção das suas amizades mais etílicas.
Pouco depois, não havia mais nós, apenas dois barbantes de pontas desgastadas; duas guimbas de cigarro como tantas outras sobre o asfalto de Botafogo.
De certa forma, compreendo.
Cansada de dar com a cara na porta fechada do meu peito, deste meia-volta rumo à segurança que só a mediocridade proporciona.
Você tinha pressa de ser feliz.
Eu não queria apressar as coisas.
Nunca quis.
Creio que você cedo ou tarde se pergunte o que poderia ter sido, pois desde então me indago constantemente sobre isso.
Eu sei como teria sido.
Melhor que não saibas.
Não desconstrua o mito.
A máscara não caiu pelo simples fato de nunca ter existido.
Me despeço com a certeza de que fui um bom passatempo.
Agora, tudo o que eu mais quero é que o tempo passe.
Já volto.
Só que não.
Faça parar.