quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Sobre rissoles e Goo Goo Dolls


Começou a rolar "Estranged" no toca-fitas do Monza tubarão.
"Old at heart, but I'm only 28, and I'm much too young to make love break my heart."
Refleti.
Ele já o fizera.
Já partira o meu coração.
O amor.
Algumas vezes.
A primeira vez foi aos 16.
Ela tinha 15. A mecha cor de rosa destacava-se em meio àquele loiro de farmácia. Seus olhos tenros pediam lápis. Seus lábios naturalmente avermelhados dispensavam batom. Sentava-se ao meu lado na escadaria que dava para o pátio do colégio. Ouvia atenta e calada os poucos acordes que eu sabia no violão.
Me apaixonei pela atenção que a mim dispensava. O "garoto do violão" tende a ser o expatriado.
Soube que sua canção favorita era "Iris". Goo Goo Dolls, banda chata de um hit só: este. A música era tema de Cidade dos Anjos, um dos filmes responsáveis por plantar em mim a certeza de que, no fim das contas, dá merda.
E com esta menina, deu.
Caprichei nos preparativos: jeans novos, tênis impecavelmente limpo, Drakkar Noir.
Na ausência da barba, o cabelo por cortar era o charme.
Tocou o sinal, saí da sala de aula triunfante, violão nas costas.
Sentei-me no degrau de sempre. Ela sentou-se minutos depois. Não dispensava o risole da cantina no recreio.
Havia praticado a porra da música por horas a fio. Em tempos pré-YouTube, recorri ao VHS que havia gravado da MTV. Tentava tocar junto com o clipe. No primeiro erro, rebobinava até o começo e tentava de novo. Fui das duas às sete assim.
Até que consegui. Uma mísera vez. Aí me concedi permissão para ir ao banheiro devolver a perna do saci.
Seu olhar dócil mirava o tampo escuro e envernizado do violão. Era um Michael da linha mais baixa-renda que existia. Um pau com cordas, para ser sincero.
Seus lábios brilhavam da gordura do rissole. Sua boca, um céu cujas estrelas eram resíduos de empanado que eu faria de tudo para irem de encontro ao meu paladar.
Toquei em seu ombro, ela se virou. Olhou-me com aqueles olhos delineados de preto. Um traço sutil que lhe conferia um semblante maduro.
"And I give up forever to touch you..."
Naquele momento éramos eu e ela. Na minha cabeça, dançávamos ao som da valsa.
À medida que prosseguia cantando e tocando, notava certa inquietação tomando conta de seu rosto.
À medida que eu avançava em minha pretensão musical, seu rosto se torcia como se levasse um choque elétrico.
"AND I DON'T WANT THE WORLD TO SEE ME..."
Ela se levanta. "Você canta mal para caralho, hein? Tá doido!"
E se vai.
E se foi.
Para sempre.
Até semana passada, quando a encontrei.
De longe parecia ser mesmo ela: o tom platinado no cabelo, só que sem a mecha que outrora me cativou.
Mas estava uma bola.
Fiquei matutando se poderia ser, tentando estabelecer o paralelo entre a doçura do passado e a adiposidade do presente.
Quando pediu um rissole no balcão, não tive dúvidas: era ela.

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