terça-feira, 28 de junho de 2016

Bougainville


Edifício em polvorosa num corre daqui, corre de lá.
De repente, todos querem saber da senhora do segundo andar.
Noventa e seis anos, viúva há mais de trinta.
Sozinha apesar dos filhos, netos, bisnetos.
Rica do tipo tinha tudo, mas não tinha nada.
Ela que dava as caras vez ou outra para tomar sol na portaria não aparecia há dias (talvez meses, mas quem arriscaria um palpite?)
Ligou-se o desconfiômetro.
Não que alguém realmente se importasse.
Lembre-se: a curiosidade é a madrasta do real interesse.
Síndico, porteiro e faxineiro numa aliança improvável e pontual arrombam a porta do apartamento 205.
O aroma que invade suas narinas confirma todas as suposições.
À medida que avançam em seu trajeto até o quarto, o flerte com a morte se intensifica.
Lá está a velha rosa sem pétalas, sem vida, sem cor, em sua cama à janela.
A natureza iniciando os trabalhos sob a supervisão das imagens de santos e anjos.
O crucifixo na parede antecipa aquele que será posto sobre seu jazigo.
A expressão denota que morreu em paz.
Mas sua paz era tanta que felicidade não havia.
O telefone não tocava, a campainha muito menos.
O silêncio a sufocou.
Morreu infeliz, calada.
Quanto aos filhos, netos, bisnetos, de nada adianta reivindicar a saudade, o direito ao luto.
Se arrependimento matasse, o reencontro dessa família não tardaria.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Cartas na mesa


Colocando na ponta do lápis, ficamos entre quatro e cinco anos juntos, sempre indo e voltando.
Parecia que ficávamos separados apenas para reunir o mana necessário para uma nova tentativa.
Quando não houve mais terrenos a virar nem cartas comprar, declarou-se o empate com sabor de derrota para ambos.
Enfim...
De 2011 até hoje, foram cinco aniversários dela que eu perdi.
É engraçado apesar de não ser: nunca chegamos a comemorar um aniversário dela juntos.
Sempre algo acontecia ou deixava de acontecer.
Houve um ano em que eu, completamente bêbado, esmurrei a cara de dois na frente dela numa festa. Não é algo de que eu me orgulhe, mas, à luz — ou falta de luz — do momento, foi ato necessário.
Ela desceu as escadas correndo, as amigas logo atrás. Nossa viagem no dia seguinte, apesar de paga, fora cancelada. Nosso futuro, aparentemente belo e irretocável, fora suspenso.
Dei tempo ao tempo e a ela. Tempo que coincidiu com o aniversário dela. O orkut não permitiu que eu esquecesse.
Saí mais cedo do trabalho, caminhei até floricultura na Rua do Rosário, comprei um cesto de rosas azuis — que me custou quase 1/4 da bolsa do estágio —, mandei entregar na casa dela. Consegui quebrar o gelo, mas nosso encontro de fato teve de esperar até o dia seguinte à comemoração.
Já em outro ano, passei o dia na cama, com ódio das circunstâncias que nos levaram a uma nova separação. Adormeci de Jack Daniel’s, embalado pela coletânea de baladas do Whitesnake.
Aí houve a vez em que eu resolvi que não a amava mais tão somente para descobrir, após um namorico frustrado com um trimestre de duração, o quanto ainda a amava e desejava que a coisa toda desse certo. Talvez fosse só saudade, ou só desejo. “O homem é um ser muito plástico”, já dizia o meu pai.
Os capítulos seguintes mostraram que o que quer que tenha me levado a tentar pela 15923846ª vez era qualquer coisa, menos amor.
Mas a essa conclusão a gente só chega quando redescobre o amor em outra pessoa.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Padrim


Voltava de um passeio pelas lojas de discos quando senti o celular vibrar dentro do bolso.
Tirando mãe, vó e Claro, raramente recebia ligações de amigos. Mesmo em tempos pré-WhatsApp, dávamos preferência ao SMS. Se não fosse urgente, esperava-se até o encontro online no MSN.
Atendi. Um amigo me trazia novidades: “existem 99% de chances de eu ser pai”.
A primeira reação foi o inevitável “fodeu/tá fodido”. Depois, vimos um rastro de esperança naquele 1%. Tolice. A confirmação de que ele seria pai viria no dia seguinte.
Jovem e com tempo de sobra, pude ajudá-lo a tomar as providências mais imediatas, entre as quais, se desfazer de uma guitarra recém-comprada e de outra, já velha de guerra, para levantar qualquer grana que fosse.
Organizou-se um casamento. Ele aprenderia na prática, menos de um ano depois, que filho não segura ninguém junto.
Fui convidado para ser o padrinho da criança que estava a caminho. Aceitei sem pestanejar.
Apesar do desespero que operava em segundo plano, a ideia de ter um afilhado me fazia pensar no monte de coisas legais que a experiência poderia proporcionar. Imaginei-me ensinando meu afilhado a tocar violão, a ouvir hard rock, a conquistar as menininhas.
Lembro em parte do dia que meu afilhado nasceu. A felicidade era tanta que tomei o pior porre da minha vida. Telefonei, trêbado, para a mãe dele dizendo: “avise o garoto que o padrinho dele é um merrrrrda, um cachaceiro de merrrdaaa!”
O tempo foi passando, a responsa foi aumentando, o tempo foi reduzindo. A minha ausência foi motivo de brigas e piadas — mais de piadas que de brigas, pelo menos.
Nos últimos tempos, busquei repor isso, me comprometendo a fazer visitas com mais frequência; sempre que possível, levando um brinquedo ou qualquer mimo que fosse.
Hoje, olho para meu afilhado e são três os sentimentos: alegria por estar tudo dando certo; pena por eu ter feito menos parte do que eu gostaria e uma inevitável pontinha de saudade dos meses anteriores à sua chegada que, por maior que fosse a tensão envolvida, serviram também para estabelecer a base de uma das minhas amizades mais sólidas e, talvez, a mais verdadeira.
Nunca agradeci a este amigo por ter me escolhido para ser padrinho de seu primeiro filho.
Que estas linhas reflitam minha gratidão.