quarta-feira, 15 de junho de 2016

Padrim


Voltava de um passeio pelas lojas de discos quando senti o celular vibrar dentro do bolso.
Tirando mãe, vó e Claro, raramente recebia ligações de amigos. Mesmo em tempos pré-WhatsApp, dávamos preferência ao SMS. Se não fosse urgente, esperava-se até o encontro online no MSN.
Atendi. Um amigo me trazia novidades: “existem 99% de chances de eu ser pai”.
A primeira reação foi o inevitável “fodeu/tá fodido”. Depois, vimos um rastro de esperança naquele 1%. Tolice. A confirmação de que ele seria pai viria no dia seguinte.
Jovem e com tempo de sobra, pude ajudá-lo a tomar as providências mais imediatas, entre as quais, se desfazer de uma guitarra recém-comprada e de outra, já velha de guerra, para levantar qualquer grana que fosse.
Organizou-se um casamento. Ele aprenderia na prática, menos de um ano depois, que filho não segura ninguém junto.
Fui convidado para ser o padrinho da criança que estava a caminho. Aceitei sem pestanejar.
Apesar do desespero que operava em segundo plano, a ideia de ter um afilhado me fazia pensar no monte de coisas legais que a experiência poderia proporcionar. Imaginei-me ensinando meu afilhado a tocar violão, a ouvir hard rock, a conquistar as menininhas.
Lembro em parte do dia que meu afilhado nasceu. A felicidade era tanta que tomei o pior porre da minha vida. Telefonei, trêbado, para a mãe dele dizendo: “avise o garoto que o padrinho dele é um merrrrrda, um cachaceiro de merrrdaaa!”
O tempo foi passando, a responsa foi aumentando, o tempo foi reduzindo. A minha ausência foi motivo de brigas e piadas — mais de piadas que de brigas, pelo menos.
Nos últimos tempos, busquei repor isso, me comprometendo a fazer visitas com mais frequência; sempre que possível, levando um brinquedo ou qualquer mimo que fosse.
Hoje, olho para meu afilhado e são três os sentimentos: alegria por estar tudo dando certo; pena por eu ter feito menos parte do que eu gostaria e uma inevitável pontinha de saudade dos meses anteriores à sua chegada que, por maior que fosse a tensão envolvida, serviram também para estabelecer a base de uma das minhas amizades mais sólidas e, talvez, a mais verdadeira.
Nunca agradeci a este amigo por ter me escolhido para ser padrinho de seu primeiro filho.
Que estas linhas reflitam minha gratidão.

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