Voltava de um passeio pelas lojas de discos quando senti o
celular vibrar dentro do bolso.
Tirando mãe, vó e Claro, raramente recebia ligações de
amigos. Mesmo em tempos pré-WhatsApp, dávamos preferência ao SMS. Se não fosse
urgente, esperava-se até o encontro online no MSN.
Atendi. Um amigo me trazia novidades: “existem 99% de
chances de eu ser pai”.
A primeira reação foi o inevitável “fodeu/tá fodido”.
Depois, vimos um rastro de esperança naquele 1%. Tolice. A confirmação de que ele
seria pai viria no dia seguinte.
Jovem e com tempo de sobra, pude ajudá-lo a tomar as
providências mais imediatas, entre as quais, se desfazer de uma guitarra
recém-comprada e de outra, já velha de guerra, para levantar qualquer grana que
fosse.
Organizou-se um casamento. Ele aprenderia na prática, menos
de um ano depois, que filho não segura ninguém junto.
Fui convidado para ser o padrinho da criança que estava a
caminho. Aceitei sem pestanejar.
Apesar do desespero que operava em segundo plano, a ideia de
ter um afilhado me fazia pensar no monte de coisas legais que a experiência
poderia proporcionar. Imaginei-me ensinando meu afilhado a tocar violão, a
ouvir hard rock, a conquistar as menininhas.
Lembro em parte do dia que meu afilhado nasceu. A felicidade
era tanta que tomei o pior porre da minha vida. Telefonei, trêbado, para a mãe
dele dizendo: “avise o garoto que o padrinho dele é um merrrrrda, um cachaceiro
de merrrdaaa!”
O tempo foi passando, a responsa foi aumentando, o tempo foi
reduzindo. A minha ausência foi motivo de brigas e piadas — mais de piadas que
de brigas, pelo menos.
Nos últimos tempos, busquei repor isso, me comprometendo a
fazer visitas com mais frequência; sempre que possível, levando um brinquedo ou
qualquer mimo que fosse.
Hoje, olho para meu afilhado e são três os sentimentos:
alegria por estar tudo dando certo; pena por eu ter feito menos parte do que eu
gostaria e uma inevitável pontinha de saudade dos meses anteriores à sua
chegada que, por maior que fosse a tensão envolvida, serviram também para
estabelecer a base de uma das minhas amizades mais sólidas e, talvez, a mais verdadeira.
Nunca agradeci a este amigo por ter me escolhido para ser
padrinho de seu primeiro filho.
Que estas linhas reflitam minha gratidão.
Jôvane <3
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