Edifício em polvorosa num corre daqui, corre de lá.
De repente, todos querem saber da senhora do segundo andar.
Noventa e seis anos, viúva há mais de trinta.
Sozinha apesar dos filhos, netos, bisnetos.
Rica do tipo tinha tudo, mas não tinha nada.
Ela que dava as caras vez ou outra para tomar sol na portaria não aparecia há dias (talvez meses, mas quem arriscaria um palpite?)
Ligou-se o desconfiômetro.
Não que alguém realmente se importasse.
Lembre-se: a curiosidade é a madrasta do real interesse.
Síndico, porteiro e faxineiro numa aliança improvável e pontual arrombam a porta do apartamento 205.
O aroma que invade suas narinas confirma todas as suposições.
À medida que avançam em seu trajeto até o quarto, o flerte com a morte se intensifica.
Lá está a velha rosa sem pétalas, sem vida, sem cor, em sua cama à janela.
A natureza iniciando os trabalhos sob a supervisão das imagens de santos e anjos.
O crucifixo na parede antecipa aquele que será posto sobre seu jazigo.
A expressão denota que morreu em paz.
Mas sua paz era tanta que felicidade não havia.
O telefone não tocava, a campainha muito menos.
O silêncio a sufocou.
Morreu infeliz, calada.
Quanto aos filhos, netos, bisnetos, de nada adianta reivindicar a saudade, o direito ao luto.
Se arrependimento matasse, o reencontro dessa família não tardaria.

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