segunda-feira, 30 de novembro de 2015

2015 no IML


O ano ainda não acabou, mas eu me sinto compelido a dissecá-lo, ainda que rapidinho, como uma vídeo-aula resumida de medicina legal.
Eu, nunca adepto das conspirações do universo de acordo com a energia que você projeta nele, fui rebatido a ponto de me converter a esse pensamento que, sem didatismo mas visando educar, agrega todo um propósito em tudo aquilo que fazemos: o universo nos devolve aquilo que damos para ele.
Em 2015, eu descobri o quanto a vida online pode ser tóxica; o quanto as palavras podem ser afiadas; o quanto o não se manifestar pode ser desolador e, ao mesmo tempo, um escudo.
Fora da rede, percebi que havia deixado de lado muita coisa importante e procurei recuperar o tempo perdido com desespero; fui de encontro a quem há tempos havia deixado de lado e procurei entender melhor as causas dos afastamentos, infelizmente, ainda muito frequentes.
Meus vacilos adquiriram um peso acima da média, tanto no trabalho quanto na vida pessoal. Passei a me cobrar muito mais enquanto ser humano e profissional, e a tolerar cada vez menos os escorregões aos quais todo mundo está sujeito.
Acho que nunca pedi tanto perdão na vida e nunca fiquei devendo tanto as minhas mais sinceras desculpas. Também acho que nunca paguei tanto pelos erros que cometi — depois de certa idade, todo castigo vem com juros e correção monetária. Cheguei perto de não conseguir me encarar diante do espelho — o que foi bom para repensar certas condutas.
Fiz algumas visitinhas ao fundo do poço, onde pude reunir o mana necessário para conjurar o meu retorno de volta à superfície
Em 2015, o câncer levou meu avô, os anos de excessos levaram meu tio-avô, o coração levou uma grande amiga.
No vai e vem da convivência, uns caíram fora ao menor deslize, outros chegaram a tempo de ver o palco desabar. Poucos me estenderam a mão no olho do furacão. Muitos desses poucos vivem a km de distância de mim.
Meu corpo me deu uns sustos. Minha saúde, sempre de ferro — exceto, talvez, pela asma —, apresentou sinais de oxidação. Em 2016, uma nova rotina precisará ser estabelecida.
Minha escrita tomou a dianteira enquanto válvula de escape, mas sigo compondo e um dia pretendo lançar — a menos que o Senhor tenha outros planos para mim.
Minha musicalidade aprimorou-se com o auxílio de um sujeito que posso considerar, além de mestre, um amigo, que nas entrelinhas das lições, me mostrou que o céu é o limite, que por melhor que você seja, sempre haverá espaço para melhorar ainda mais.
Nunca como em 2015 desejei tanto poder voltar no tempo; retroceder ao pequeno ser que já fui, à condição de dependência, à necessidade do carregar, do alimentar, do assear; do faro de minha mãe, preciso e perito, que ao menor sinal, identificava o que quer que pudesse haver de errado comigo.
E é com sorriso no rosto que admito o que alguns — infelizes — chamariam de fraqueza: ainda sou dependente do colo, do carinho e do conforto de minha mãe. Pois não há nada que se compare a certeza que ela me dá de que a vida encontrará um caminho.
Não posso ignorar os shows que assisti, os livros que li, os trabalhos que realizei, os bens que adquiri e como passei a dar valor ao que realmente importa: a paz, estar em paz, comigo e com o universo.
Estou em paz e sem ressentimentos, como um carro que explodiu depois de cair do penhasco e encontrou no fogo a purificação.
Minha fé na humanidade ainda respira com a ajuda de aparelhos, mas minha esperança no futuro brilha no olhos daquela que me adora.
Vem, 2016. Se pera caso eu estiver errado a seu respeito, que seja errado em meu favor.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Poesias #7


Hollywood

drummond
se vivo hoje em dia
no lugar de quadrilha
escreveria centopeia humana


Amor: o retorno

teu amor para mim é refugo
e de nós dois só ficou o resíduo
te abraçar é mergulhar no monturo
reviver (em HD) um fracasso antigo

nosso adeus te tornou sapucaia
dura, pesada, carnosa e pálida
recordar é álcool na ferida
hoje chagas purulentas
atroz amor em carne viva


Ter a fama por ter a obra ou não ter a obra e só ter a fama?

Quero ser lembrado pelos méritos legítimos
Os quais possam ser comprovados
Ter meus atos reconhecidos
Ainda que tenham sido atos falhos
E que eu sirva de exemplo
Mesmo que exemplo a não ser seguido
Mesmo que exemplo a não ser lembrado

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Quando o sol invade os olhos


Em 2005, eu não era como a maioria dos colegas era.
De fato, eu meio que personificava o estereótipo que eles mais repudiavam.
Enquanto todos eles tinham suas mochilas da Jamf, eu preferia minha mochila jeans com patch do Guns N' Roses costurado.
Nike Shox? Detestava. Preferia os Olympikus que, além de tudo, eram muito mais baratos — embora às vezes fosse difícil encontrá-los no tamanho 45.
Toda aquela indumentária praiana, floral, Posto 9... nada disso me atraía.
Muito mais maneiro aquele jeans rasgado nos joelhos, a camiseta do Iron Maiden já cinza de tanto lavar — nunca fedendo, importante frisar.
Talvez por isso eu me sentisse um expatriado, ovelha-negra, alívio cômico.
Talvez por isso eu jamais tenha me sentido, de fato, integrado ao ambiente no qual alguns tentaram me inserir.
"Para de usar só preto", diziam. "Você quer pegar mulher ou não quer?"
Óbvio que queria. Uma em especial.
Ela achava "muito f***" (com os * mesmo) eu ouvir as bandas que "meu irmão mais velho ouve".
Ela achava "legal" eu levar o violão para a escola enquanto a maioria tentava se afirmar jogando bola ou fumando escondido no colégio — não que ela desprezasse os atletas. Na verdade, a paixonite dela era justamente um dos craques do time, descobriria da pior maneira possível mais tarde.
Ela, então, me convidou para ir ao seu aniversário, que seria realizado num evento de nome nada motivador: Rio Playsson Party.
Imaginei logo toda aquela "rapeize" Redley, cabelo com parafina, suas gírias e maneirismos, contando vantagem sobre aqueles que não se enquadrassem no padrão que havia se estabelecido.
Que merda.
Mas o pior de tudo não seria ter de ser alvejado pelos olhares de lentes de contato e imaginar os julgamentos que estariam sendo feitos. O pior seria encarar três horas e pouquinho de três bandas que só de ouvir os nomes já me embrulhavam o estômago. Entre elas, o tal do Forfun.
Ela adorava o Forfun. O MSN dela denunciava tamanha paixão. As comunidades das quais fazia parte, idem.
"Felicidade é um fim de tarde olhando o mar".
Eu achava isso o maior lero-lero.
Tomei um ódio particular dessa música em especial quando a vi beijando outro cara (mencionado acima) no maldito evento.
"Os R$ 15 mais mal-gastos da minha vida", por tempos sustentei tal afirmação.
Por tempos, culpei o Forfun pelo meu fiasco na Rio Playsson Party.
Dez anos se passaram. Soube que o Forfun está realizando uma turnê de despedida. "Eles duraram esse tempo todo?", pensei.
Coincidência ou não, reencontrei aqueeela garota na rua dia desses.
Os anos só acentuaram nossa incompatibilidade, já bastante evidente na época da escola e que só eu não enxergava.
Por outro lado, a letra de "Hidropônica" passou a fazer total sentido.
Um mergulho no mar de Ipanema, com o céu meio nublado; o mergulho da purificação, da restauração; a sensação de que todas as impurezas da minha alma foram diluídas na água salgada.
O peso do mundo que carregava em meus ombros tornou-se areia a repousar sob meus pés.
Olhei para o céu, o sol se pondo no horizonte, um ou outro raio de sol perfurando as nuvens espessas da chuva que estava por vir.
Mirei as ondas em seu espetáculo soberbo e sonoro.
O Forfun estava certo o tempo inteiro.
Felicidade é um fim de tarde olhando o mar.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Poesias #6


Qual é o nome da tua insônia?

Qual é o nome da tua insônia?
Quem é que reina na tua madrugada?
Abre tua porta, acende tua luz
Te faz revirar de um lado ao outro em busca da melhor metade da cama

Quem é que te tira o sono?
E torna o teu dia seguinte pesadelo
Te arrasta pelo corredor
Te arrasta para os afazeres
Te reaproxima da fé há tempos perdida
É motivo e propósito das tuas orações

Qual é o nome da tua insônia?
Quem mais ousaria cometer tal desatino em troca do teu abraço acolhedor?
Que outro sorriria em deleite ante as tuas olheiras?

Quem é que manda no teu sonho?
Quem é que te tira o sono?
Quem é que equivale a céus, mundos, astros?
Pilota o teu universo como um trator
Em meio ao véu de estrelas do céu noturno

Quem é o café da sua mente?
Que te acorda, que te prende
Que te faz querer ficar online

Diz o nome da tua insônia
Aquela que visualiza e não responde
E que mesmo em silêncio, mesmo à distância
Reivindica e consegue a melhor metade da cama

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

320 kbps


Não é de hoje que faço playlists para você.
Esta não apenas é a maneira que eu encontro de estar presente no seu dia-a-dia — pelo menos enquanto você não enjoa das músicas —; é também a maneira que eu encontro para transmitir o que sinto.
Quando as palavras me fogem, peço emprestados versos da autoria de meus ídolos que tão milimetricamente traduzem o que passa dentro de mim.
Cada música é sempre escolhida a dedo.
A ordem em que elas aparecem na lista nunca é aleatória.
Artistas que se repetem, às vezes num mesmo volume, conquistaram seu posto com méritos líricos.
Mas além disso, é importante dizer que cada música escolhida torna-se parte do meu repertório pessoal com você; da nossa história, por assim dizer.
História essa que deu margem ao azar incontáveis vezes, parecendo permitir que o universo conspirasse contra o que, um dia, foi sonho.
O destino despeja as pessoas em cima de nós; e nós escolhemos quem merece ficar.
Incontáveis vezes fiz o favor, quase implorei, para que você me jogasse fora, desistisse de mim.
Tantas outras eu, num esforço hercúleo, procurei superar sentimento que invade, toma conta e deixa marcas.
Nunca rolou.
De ambas as partes.
Nas nossas tentativas de desapego, nos tornamos cada vez mais fundamentais um ao outro.
Busque as mensagens por trás de cada música e encontre a mim.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Golpe fantasma de fênix


Nos conhecemos na antiga CA; eu já com seis anos, ele, ainda com cinco.
Era recreio, éramos de turmas diferentes, nosso primeiro contato foi numa troca de figurinhas do álbum dos Cavaleiros do Zodíaco — não aquele primeiro, que tínhamos que colar as figurinhas com cola, o seguinte, do filme, com figurinhas autocolantes e uma ou outra holográficas, que na troca valiam duas "normais".
Aliás, foi por violar essa "regra", aceitando somente uma figurinha "normal" em troca de uma holográfica, que percebi que poderíamos ser amigos.
A primeira vez que brincamos juntos foi dias depois. De Cavaleiros do Zodíaco. Em nossa fase de testes, tivemos nossa primeira briga. O motivo: nós dois queríamos ser o Ikki.
No ano seguinte, as duas turmas da CA viraram uma hiper-turma de primeira série. Lá estávamos eu e ele, juntos, na mesma sala. O álbum da vez era o do Brasileirão daquele ano. Estabelecemos uma sociedade na coleção: completaríamos um álbum juntos.
Os critérios de troca foram atualizados: figurinhas de craques — Romário, Bebeto, Sávio — tinham o peso das holográficas trazendo os escudos dos clubes.
Adorar, entender e colecionar futebol não resulta em Bola de Ouro. Na educação física, dois pernas de pau, sempre torcíamos para cair no mesmo time. Era a garantia de boas risadas. Secretamente apostávamos quem seria o primeiro a ser expulso por uma falta violenta.
E por falar em ser mandado para fora do jogo, foram muitas as suspensões ao longo do primário por aprontarmos além da conta — ainda que nossos boletins não refletissem isso.
Cuidávamos um do outro e nos ajudávamos.
Eu, fera em história, geografia e idiomas dava uma força para ele, gênio das exatas e biológicas, justamente o meu ponto fraco.
Começamos a frequentar as matinês juntos. Íamos ao cinema com outros amigos e amigas. Compartilhamos um bocado das melhores e piores experiências da pré-adolescência.
Ele estava presente no meu primeiro porre. Eu estava presente no enterro da avó dele.
Foi para mim que ele ligou quando levou o primeiro pé na bunda. Foi o pai dele que me deu meu primeiro emprego.
Cumplicidade.
Amizade.

Sou daqueles que acredita nos propósitos da vida.
Nada acontece por acaso.
A vida se encarrega de reduzir a pó quando há necessidade.
"Das cinzas nascem as flores", diz a minha vó.
Houve um tempo em que eu comparava nossa amizade a de Dalton e Wade em Matador de Aluguel, ou a de Forrest e Bubba em Forrest Gump.
Fomos, assim, amigos até começarmos a discordar política e religiosamente.
Em tempos de acalorados debates virtuais, opiniões divergentes expoem a fragilidade do atual conceito de amizade: imunodeficiente, que deteriora a menor exposição ao mau tempo, e faz tanta falta quanto pijama em lua de mel.
Não me surpreendeu quando visitei seu perfil e confirmei que ele havia desfeito a "amizade" comigo.
O "desfazer amizade" no Facebook foi mera simbologia; nós já havíamos deixado de ser amigos há muito tempo.
Tentei ligar para ele no seu aniversário. Chamou até dar caixa postal.
Ele entrou no mesmo ônibus que eu estava. Passou direto, sentando-se afastado de mim.
As últimas eleições soterraram a nossa história.
Nas próximas terá o meu voto ao candidato que me assegurar que não perderei mais nenhum amigo.

Reunião dos ex-colegas de colégio, alguns dos quais brincavam de Cavaleiros do Zodíaco comigo e com meu ex-amigo.
Lá pela vigésima rodada, a mudança radical do meu ex-amigo — descobri que não fui o único a ser deletado do Face e da vida dele — veio a baile.
— Hoje em dia vocês não brigariam pelo papel de Ikki, Marcelo. Dizem por aí que ele agora está mais para Shun de Andrômeda.
A mesa sacou a referência e caiu no riso.
Menos eu. Agora, mais do que nunca, eu continuaria sendo o Ikki.
Onde quer que você esteja, seja forte, Shun. Meu eterno irmãozinho.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Idoso na era digital


oito e meia da manhã o telefone toca.
— se for a oi de novo, eu vou mandar tomar no cu.
do outro lado da linha, uma velha à beira do abismo da morte diz que eu fui o sorteado na rifa da igreja.
essas rifas de igreja são foda. é o tipo de coisa que você assina e seja o que deus quiser. que nem as supostas cortesias de editora que você só lembra quando chega a fatura do cartão cobrando a primeira parcela da assinatura de alguma revista.
enfim, deus quis que eu ganhasse uma coisa chamada tablet.
meu último contato com tecnologia de ponta é tão antigo quanto a extinta tv excelsior.
fui na sacristia da paróquia resgatar o prêmio um outro senhor que eu só conheço de vista da fila da lotéria foi contemplado com um jogo de resta-um. que inveja! o último que eu tive, dolores zuniu pela janela numa das muitas vezes que cheguei trincado de birita e fedendo.
eu mal conseguia ligar o tal tablet. dolores me mostrou o manual. tudo em chinês, japonês, coreano, sânscrito, o que for. só leio em português. meu vocabulário em inglês, nulo até então, adquiriu sua primeira palavra: tablet.
— CONSEGUIIIII
aquele "iiiii" ficou ecoando no meu telex por minutos. dolores era foda de esperta. mas mais esperto ainda fui eu, que a escolhi para ser a última mulher da minha vida. pelo menos até onde ela sabe.
os dez reais da rifa fui eu que paguei, mas foi dolores quem tomou o prêmio para si. ela não desgrudava mais do tablet. nada mal para uma senhora às vésperas de ter direito a gratuidade no ônibus. meu riocard sênior já está todo torto e gasto.
a comida parou de ser servida na hora. as camisas nem sempre estavam engomadas. a cama passou a ser feita à moda caralho. nem o programa de rádio do padre marcelo rossi ela ouvia mais.
às vezes, retornando da minha caminhada matina, nem um 'oi' eu ouvia. olhos fixos naquela merda com tela.
sempre me disseram que discutir relacionamento era coisa de mulher ou maricas. definitivamente não era o meu caso, mas eu precisava saber até quando aquela palhaçada iria continuar.
minha velha nem tão velha, quatro décadas juntos. doei um rim para ela. pago todo mês o boleto do canal cristão sem reclamar.
esperei terminar o jornal nacional.
— dolores...
sem resposta.
filha da puta. dormiu. foda-se.
no dia seguinte, nada do meu café. dolores ainda no sofá.
aquele cheiro não me era estranho.
dolores estava morta. em suas mãos, o tablet, o anjo da morte fabricado na china, trazido a esta casa por intermédio divino.
infarto fulminante.
enterrei dolores.
muitos dias e conhaques depois, liguei o tablet assassino como se houvesse a possibilidade de interrogá-lo, de fazê-lo pagar.
uma imagem como há tempos não via. coisa que não passava na tv excelsior. em cores!
finalmente entendi o que aquele apresentador lá, o hulk, quer dizer com ALTA DEFINIÇÃO.
um toque na tela e a pica entrava e saía, a boceta sendo castigada, o suor; um garotão, duas meninas, todos possuídos, incontroláveis.
virei o porta-retrato com o rosto de dolores contra a mesa.
dei uns tapinhas nele mole para ver se enrijecia.
o gemido decibélico de uma das gatinhas parece ter esgotado a bateria do tablet, que desligou antes de consumado o ato.
será que vendem viagra na farmácia popular?
e essa porra de dor no braço esq...

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

R.I.P. Celo


Hoje pela manhã foi encontrado o meu corpo.
Não se sabe ainda a causa da morte.
A bem da verdade, muitas coisas podem ter feito meu coração parar de bater.
Ele bebia demais, comia demais, trabalhava demais.
Ele dormia de menos, se exercitava de menos, era responsável de menos.
A vida lhe foi impiedosa. Não lhe restava mais nada. Suicídio?
"Seu dinheiro não lhe trazia felicidade" — mas a pobreza também não me traria porra nenhuma, né?
Mas isso não importa.
Já confinado, a caminho do solo onde me aguardam os vermes, procuro imaginar o que estariam dizendo aqueles que, permanecendo no reino dos vivos, terão de lidar com a minha ausência.
O choro nem sempre transparece a verdade oculta dentro de nós.
Por favor, não ousem me beatificar.
Não atingi a santidade em vida, de que vale a idolatria na morte?
Permitam-me escutar sua sinceridade.
Cadáver não sabe o que é decepção.
"Marcelo me iludiu", podem pensar uma ou outra.
"Eu o iludi, e agora que ele está morto, jamais me perdoarei." (Esta, com certeza, está combinando bar com os amigos para depois do meu enterro)
"Marcelo era emocionalmente imaturo!"
"Marcelo se achava a última bolacha do pacote!"
"Egocelo sofria de transtorno de autorreferência."
"Makotop gostava mais dos seus discos que de qualquer outra coisa."
"Magordo quase nunca vinha ver o afilhado."
"Marcelo era o melhor parceiro no Metal Slug."
"Marcelo era o pior adversário no Magic."
"Marcelo tocava violão com paixão, apesar de não tocar porra nenhuma."
E os posts no Facebook?
"Makothieeeeeeeeee bor gue vose tia gue morreeeeeeeeeeeeee????"
"R.I.P. Celo"
"A Hardlands não será a mesma sem você."
"Fly to the angels, Celinho."
Fora as fotos com textão e os clipes de músicas que, eventualmente, fizessem um ou outro lembrar de mim.
"Este Kick Axe é para você, Makotinho."
"Marcelo Tuff [banho] vai deixar saudade."
Vislumbro aqueles que, em seu silêncio, vêem-se incapazes de perdoar Deus, as circunstâncias ou eu mesmo.
Tudo isso parece me comover de uma maneira estranha.
Em vida, eu provavelmente teria chorado já.
Mas no silêncio da eternidade, não há espaço para lágrimas.
Ao término da oração, uma voz irrompe em meio à capela:
"Tremendo de um filho da puta, já foi tarde!"
O corpo morto sorri.
Fiz um bom trabalho.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Sim, te perdôo


A vida nos ensina que o perdão não é mágica.
Pedir perdão não é um abracadabra ou um abre-te sésamo.
O perdão não vem a partir de um comando.
O perdão não é algo que se programe; não é uma linha de código ou uma resposta automática de e-mail.
Você não pode prever o perdão.
Perdão também não é uma obrigação.
Você não pode contar com o perdão como um álibi tardio.
Não espere que aliviem a sua barra sempre que você fizer uma merda; pensar nas consequências dos atos faz parte do desafio diário que é a vida.
Perdão também não é um prêmio.
Equivale ao sentimento de ver um filho sair da cadeia após um período de reclusão; é alívio mesclado a vergonha.
Perdoar não equivale a dar uma segunda chance.
Todo mundo tem seus limites.
Os créditos do celular podem ser estourados em uma ou dez ligações.
Pedir perdão não torna você superior, mas se há um Deus lá em cima, talvez conte pontos e vantagens para a hora da partida.
Não estou dizendo que quem admite o erro conquista o lugar na janela do avião para o além.
Mas, sem dúvida, não tem de pagar multa por excesso de bagagem.
Perdoar também tira o peso dos ombros, ainda que não apague a mancha da desconfiança.
Perdoar não é amar o outro, mas amar a si.
Perdoar é acreditar que só a morte é irreversível.
Pedir perdão é só um primeiro passo.