segunda-feira, 16 de novembro de 2015
Idoso na era digital
oito e meia da manhã o telefone toca.
— se for a oi de novo, eu vou mandar tomar no cu.
do outro lado da linha, uma velha à beira do abismo da morte diz que eu fui o sorteado na rifa da igreja.
essas rifas de igreja são foda. é o tipo de coisa que você assina e seja o que deus quiser. que nem as supostas cortesias de editora que você só lembra quando chega a fatura do cartão cobrando a primeira parcela da assinatura de alguma revista.
enfim, deus quis que eu ganhasse uma coisa chamada tablet.
meu último contato com tecnologia de ponta é tão antigo quanto a extinta tv excelsior.
fui na sacristia da paróquia resgatar o prêmio um outro senhor que eu só conheço de vista da fila da lotéria foi contemplado com um jogo de resta-um. que inveja! o último que eu tive, dolores zuniu pela janela numa das muitas vezes que cheguei trincado de birita e fedendo.
eu mal conseguia ligar o tal tablet. dolores me mostrou o manual. tudo em chinês, japonês, coreano, sânscrito, o que for. só leio em português. meu vocabulário em inglês, nulo até então, adquiriu sua primeira palavra: tablet.
— CONSEGUIIIII
aquele "iiiii" ficou ecoando no meu telex por minutos. dolores era foda de esperta. mas mais esperto ainda fui eu, que a escolhi para ser a última mulher da minha vida. pelo menos até onde ela sabe.
os dez reais da rifa fui eu que paguei, mas foi dolores quem tomou o prêmio para si. ela não desgrudava mais do tablet. nada mal para uma senhora às vésperas de ter direito a gratuidade no ônibus. meu riocard sênior já está todo torto e gasto.
a comida parou de ser servida na hora. as camisas nem sempre estavam engomadas. a cama passou a ser feita à moda caralho. nem o programa de rádio do padre marcelo rossi ela ouvia mais.
às vezes, retornando da minha caminhada matina, nem um 'oi' eu ouvia. olhos fixos naquela merda com tela.
sempre me disseram que discutir relacionamento era coisa de mulher ou maricas. definitivamente não era o meu caso, mas eu precisava saber até quando aquela palhaçada iria continuar.
minha velha nem tão velha, quatro décadas juntos. doei um rim para ela. pago todo mês o boleto do canal cristão sem reclamar.
esperei terminar o jornal nacional.
— dolores...
sem resposta.
filha da puta. dormiu. foda-se.
no dia seguinte, nada do meu café. dolores ainda no sofá.
aquele cheiro não me era estranho.
dolores estava morta. em suas mãos, o tablet, o anjo da morte fabricado na china, trazido a esta casa por intermédio divino.
infarto fulminante.
enterrei dolores.
muitos dias e conhaques depois, liguei o tablet assassino como se houvesse a possibilidade de interrogá-lo, de fazê-lo pagar.
uma imagem como há tempos não via. coisa que não passava na tv excelsior. em cores!
finalmente entendi o que aquele apresentador lá, o hulk, quer dizer com ALTA DEFINIÇÃO.
um toque na tela e a pica entrava e saía, a boceta sendo castigada, o suor; um garotão, duas meninas, todos possuídos, incontroláveis.
virei o porta-retrato com o rosto de dolores contra a mesa.
dei uns tapinhas nele mole para ver se enrijecia.
o gemido decibélico de uma das gatinhas parece ter esgotado a bateria do tablet, que desligou antes de consumado o ato.
será que vendem viagra na farmácia popular?
e essa porra de dor no braço esq...
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