sexta-feira, 24 de abril de 2015

Duas sacolas

verifiquei que em duas sacolas cabem o concreto, o planejado.
cabe aquilo que jamais conseguiríamos.
cabem pontos de ruptura e uma penca de recomeços.
cabe a esperança de que a manhã seguinte cicatrize o dia que devia terminar logo!
muitos megas de canções de efeito peridural, que ao tocarem promovem verdadeira bagunça no pensamento.
infame este recurso, o shuffle — apaixona-se e desapaixona-se no modo aleatório, tal qual o tocador de mídia, que sempre pareceu escolher a dedo — do meio — a trilha sonora mais apropriada para cada momento.
tantos foram os versos que eu fiz nos intervalos da manhã, abdicando do pão com manteiga, do convívio dos colegas, do wifi liberado.
tantos foram os engarrafamentos.
celulares sem crédito ou bateria.
muito este universo conspirou — ora cúmplice, ora traiçoeiro.
e os ideais de futuro? a dois, a sós, inimigos íntimos, nós sabíamos, mas rejeitávamos burra e cegamente.
acomodação. ilusão.
não sabíamos o que queríamos, mas sempre queríamos o que não teríamos.
mas sorríamos. 
e trepávamos. como trepávamos!
a química de dois amantes em eróticos tangrans.
nossa humanidade enquanto condição e característica.
duas sacolas pareciam ser muito.
até que vi o personagem de george clooney em amor sem escalas dimensionando a vida em uma mochila.
ele se fode no final do filme.
finais felizes: uma falácia?
amores improváveis não têm como durar uma vida toda.
o encanto da primeira impressão é perecível.
não se negocia a individualidade em casos extremos de amor-prisão.
um par de tênis, um par de chinelos, uma colônia, camisetas, dvds, um livro.
e um fio de cabelo seu, intruso, parasita.
um fio alien a emitir sinais em tempo real para que saibas o momento exato.
tudo isso coube nas duas sacolas.
as quais são como os sonhos: você pode sempre colocar no corredor.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Poesias #2


Metáfora do homo canis

O homem imita o cão
A nível de gato persegue o rabo
Persegue o rato, homem canino!


Sálvia e saúva

O que há de melhor, milagreiro
Que a sálvia de variados aspectos
Feito cálice bilabiado aberto
Larga, achatada e estéril

O que dizer então da saúva
Carregadeira, operária, cabeçuda
Eu sou o teu macho, sabitu!
Tu és minha fêmea, tanajura!


Amor na noite

Uma bela moça
Um belo exemplar
Que de noite o coveiro
Vai namorar
A pá fica a postos
Para desenterrar
O corpo da virgem
Que está a repousar
Seus olhos fechados
Não páram de inchar
A boca que é roxa
Num eterno beijar

Um passeio além da cova
Nos braços do coveiro
Paixão fria e mórbida
No cemitério
Com cuidado ele a despe
Com carinho ele a gira
Prum lado e pro outro
Como se estivesse viva
Então oscula funesto
Um casal ao luar
Ele, um louco
Ela, defunta

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Poesias #1


Seis meses de casado

Aferir
Compelir
Discernir
Pedir
Pedir
Insistir
Digerir

Agredir
Denegrir
Transgredir
Refletir
Repelir
Despedir
Progredir

Dormir?
Durmamos


Garage

Sombras
Temáticas
Elucidam
Decadência
Disforme
Zumbido
Um rock
Do demo
Balada
Veneno
Tomando para si as pobres almas das pobres madeixas de onde pinga o Neutrox
Há um longo caminho
até a linha
do trem
Balada
Zumbido
Um rock
Um trem


Primórdios da medicina mental

Louco
Sim
Mas só um pouco
Feliz quem compartilha
da felicidade de um louco
assim como eu
Louco
Mas por bem pouco
Não sou normal
Se normal eu fosse
Louco não seria afinal
E não escreveria poemas loucos
Tontos
Tortos
Muitos dirão que sou genial
Que por bem pouco mesmo
Não sou alguém normal
Mas é na loucura que me encontro
Ser louco é o meu normal
Em busca da loucura
Loucura ideal
Louco
Que nem um porco
Mas não um porco normal
Um porco louco
Que mesmo louco
Ainda é
Sobretudo
Pouco

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Jon Secada


— lata tem de que?
— antarctica, brahma, itaipava...
— e garrafa?
— long neck ou 600?
— 600.
— só itaipava
nada como uma cerveja merda para uma noite merda.
o dia que boteco da mimosa tiver guinness, eu não saio mais de lá.
mas eu não tinha ido à mimosa comer puta. algumas eu não comeria nem se me devolvessem o dinheiro na saída.
imagino meu pau encolhendo de medo, torcendo para que eu não beba a ponto de enfiá-lo numa roubada.
o bar que escolhi, um inferninho no que meus amigos e eu batizamos mercadão de madureira, tinha cheiro de pastilha sanitária.
o chão molhado apontava para um vazamento. baratas no balcão. serviram minha itaipava num copo sujo de batom.
não reclamei. foda-se.
na tv pendurada na parede, jon secada cantava "it's just another day without you..." e eu fui transportado para dentro da canção.
o jon da tv em nada lembrava o dos clipes antigos. a cara encarquilhada feito solo árido me mostrou como o tempo podia ser, e era, implacável.
ver aquele velho cantando sobre estar um dia mais sem alguém me fez perceber como eu vinha errando nas escolhas.
a segunda garrafa de itaipava chegou. pedir para trocar o copo sujo foi a maior demonstração de amor próprio em tempos.
o show do jon já havia acabado e ninguém tinha notado. eu devia ser o único a estar prestando atenção.
prostrado de cerveja, fiquei assistindo o menu do dvd em looping ad eternum com aquele refrão dilacerante.
a cada repetição, uma lembrança. alternância entre tempos felizes e infernos astrais.
da mesma forma que sempre encarei a felicidade como consequência, sempre busquei um culpado para os fracassos.
já culpei deus, o diabo, amyr klink, frida, os signos.
já atribuí a responsabilidade à coisas que eu nem sei como funcionam.
são cipriano deve me odiar.
levei um ano e alguns salários para entender que simplesmente não fazia sentido.
a beleza de ser autodepreciativo, celebrando a solidão como se fosse uma conquista, o fato de estar à deriva como se fosse uma opção.
***
— acorda, bonitão — o despertar veio naquela voz rouca.
já estava amanhecendo.
meus olhos eram remela pura. custaram a abrir. não reconheci seu rosto, mas a cor de seu batom eu já havia visto naquela noite.
perguntou se eu queria usar o banheiro. eu disse que não. agradeci e saí.
faço um sinal, o táxi pára.
— cruz vermelha, por gentileza.
no dial, o inconfundível locutor de voz açucarada: "você ouviu jon secada com just another day. jb fm faltam quinze para as sete."
que livramento!
naquele exato momento eu fiz as pazes com deus.

(crédito da imagem: http://glo.bo/1MVQ3yt)

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Macarrões coloridos


eu nunca tinha visto aquilo.
macarrões coloridos, que pareciam de mentira!
uns verdes, outros laranjas, outros, em menor proporção, na cor natural da massa.
não sei o porquê daquilo — pode ser apenas o corante —, mas fiquei de boca aberta e com água na boca.
fiquei tentado a experimentar mesmo cru (sei lá se o gosto é diferente!)
na panela, imersos n'água, eles brilhavam; eram insígnias alimentícias.
um fio de azeite torna-se auréola sobre o que pareciam os cachos de um anjo punk rock.
um pouco da cor se perde conforme a fervura — assim como o cabelo tingido desbota a cada lavagem.
me aproximo do fogão para ver e ouvir o borbulhar.
o cheiro da massa cozida dá match com o estômago que ronca mais de ansiedade que de fome.
— prefere al dente?
sua voz me faz sair do transe.
sorrio. você sorri de volta. acho que não entendeu o que estava acontecendo.
sinto-me relaxado, descansado e bem. 
e salvo.
o almoço finalmente está servido. 
— deixa que eu pego o suco na geladeira — diz você, a minha mulher, o meu amor.

domingo, 5 de abril de 2015

Todo Santos


A tarde está quente. 
O papo começa a esquentar. 
A tendência é esquentar ainda mais. 
Qual será o nosso ponto de fervura? 
O que você chama de jogo, eu chamo de atração — sim, eu sempre tenho resposta para tudo.
Mesmo quando eu preferia não ter.
É agora que eu te mordo. 
Sei que você gosta. 
Pescoço e barriga. 
A regra manda você morder de volta — what comes around goes around, no pingue-pongue, assim como no amasso.
Quando as mordidas cessam, outras ferramentas entram em ação. 
"Você não é de atitude, então acate as minhas ordens."
Comece pelo ouvido. Pescoço. Seguro você pela nuca. Dedos por entre os seus cabelos. Seu queixo é o antílope indefeso à minha investida leonina.
Algo se enrijece. A curiosidade te leva a conferir.
Baixo as alças da sua blusa com a boca. Abro seu sutiã com a milenar técnica dos dois dedos.
"Tenho vergonha, ser mãe não me deixou ilesa."
Olho contemplativo para os peitos que estou prestes a cair de boca e alma.
Sinto um calor vindo de dentro de você. (Alguém chame os bombeiros!!!!)
"Estou envergonhada."
"O que é a vergonha se não sentimento subalterno a outros?"
"Ela não os elimina."
Enquanto você discorda, eu te beijo na boca com vontade, com os dedos percorrendo suavemente as suas costas.
Você me olha com aprovação. 
Chego lá embaixo. Você se arrepia. 
Eu rio orgulhoso. Baixa oxigenação cerebral (?)
Você o segura com força. Sente cada latejo. Me diz algo que me faz pirar.
Estou feito uma pedra, mas ainda há muito a explorar no mundo dos sonhos que é o seu corpo. 
Neste momento, somos sabor, textura e aroma.
"Não sou boa com palavras."
"Na cama, você é a minha coautora."
O botão da sua saia se abre de repente — providência divina atuando em favor de uma tarde memorável? 
Você tira a saia devagar. Encaro isso como um convite. Reparo nas pernas que sempre me chamaram a atenção.
Puxo-te pelo elástico da calcinha. Assustada, você sorri e ri. Mais mordidas na barriga já marcada e úmida.
Voltas para cima de mim arrastando-te desde o queixo até o ventre pelo totem que se ergue por baixo da bermuda. 
Sua cara de malvada me deixa vidrado. Ansioso pelo seu bote hábil com as mãos e feroz com a língua, que vagueia silenciosa pelas minhas orelhas deixando um rastro molhado.
"Sinta-se envaidecida. Tudo isto é mérito teu!"
"Estou envergonhada…"
"Não é o que as pontas dos meus dedos dizem…"
"Você é tão divertido."
"Você é de tirar o fôlego!"

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Eu monitoro


o silêncio prevaleceu desde o derradeiro encontro.
naquela noite, nós dois, um cadáver anunciando a própria morte, revendo os termos e condições como se fôssemos produto ainda na garantia.
mas já era, já eramos, tudo mudou, todos sabíamos.
dormi decidido a abolir o caráter definisório; se é pra mudar, muda direito, porra.
acordei sábado às dez tomado por uma espécie de amor próprio platônico.
o nescau estava mais doce, a torrada mais crocante, o pouco de sol que a persiana permitia a entrada tinha um brilho sem igual.
o celular carregado, as primeiras notícias do fim de semana.
a curiosidade toma conta. 
whatsapp. sua foto mudou. seu status também.
facebook. não estou mais na sua lista, mas ainda posso vê-la.
(linkedin. isso você nunca teve. até hoje não sei se és autônoma, freelancer ou apenas uma pétala cuja brisa carrega por aí.)
sei com quem sai, para onde vai, o que tem feito, comprado.
vejo quem te marca em fotos que eu duvido que tenham passado pelo seu crivo.
(se bem que a gente perde um pouco a noção quando está sozinho e insatisfeito; liga o foda-se pro cabelo suado, pro olho fechado, pra boca monstruosamente aberta, pro ângulo desfavorável onde a pochete diz olá.)
leio manchetes que me trazem à mente a reação mais óbvia que você teria:
rock in rio confirma artistas que eu sei, você daria um rim para ver de perto.
morre aquele cantor cuja música um dia fez parte da nossa trilha sonora entre quatro paredes.
novo método contraceptivo chega ao mercado e eu já imagino você esperando a farmácia abrir.
aí a sua foto muda, o seu status também.
eu sei que você se preocupa também; eu sei que você se pergunta também.
a curiosidade é foda, mesmo quando o interesse é nulo.
o monitoramento pelo monitoramento; estar em dia, dar aqueeela espiadinha.
me divirto tentando decifrar o que as suas metáforas querem dizer, o porquê de teres postado tal música, dando ênfase a tal trecho da letra.
os sinais me levam a crer que está tudo bem e isso é bom pra caralho.
nunca quis que a vida lhe castigasse por mais que você tenha castigado o meu coração.
desde a manhã de sábado que sucedeu o ponto final mais dolorido da minha vida, sou apenas amor (ainda que amor sabático, com chuviscos e ruídos, mas amor amor, do tipo que reveste)
nova foto, novo status.
fotos em preto e branco e sua dramaticidade.
eu estava enganado: você ainda está na merda.
não procuro a confirmação de que sou o causador.
de longe, e nunca em altos brados, torço para que chegues ao fundo do poço.
e de lá dê o impulso de volta para o topo.
(só não conte comigo na superfície: eu não estarei lá.)