quarta-feira, 8 de abril de 2015
Jon Secada
— lata tem de que?
— antarctica, brahma, itaipava...
— e garrafa?
— long neck ou 600?
— 600.
— só itaipava
nada como uma cerveja merda para uma noite merda.
o dia que boteco da mimosa tiver guinness, eu não saio mais de lá.
mas eu não tinha ido à mimosa comer puta. algumas eu não comeria nem se me devolvessem o dinheiro na saída.
imagino meu pau encolhendo de medo, torcendo para que eu não beba a ponto de enfiá-lo numa roubada.
o bar que escolhi, um inferninho no que meus amigos e eu batizamos mercadão de madureira, tinha cheiro de pastilha sanitária.
o chão molhado apontava para um vazamento. baratas no balcão. serviram minha itaipava num copo sujo de batom.
não reclamei. foda-se.
na tv pendurada na parede, jon secada cantava "it's just another day without you..." e eu fui transportado para dentro da canção.
o jon da tv em nada lembrava o dos clipes antigos. a cara encarquilhada feito solo árido me mostrou como o tempo podia ser, e era, implacável.
ver aquele velho cantando sobre estar um dia mais sem alguém me fez perceber como eu vinha errando nas escolhas.
a segunda garrafa de itaipava chegou. pedir para trocar o copo sujo foi a maior demonstração de amor próprio em tempos.
o show do jon já havia acabado e ninguém tinha notado. eu devia ser o único a estar prestando atenção.
prostrado de cerveja, fiquei assistindo o menu do dvd em looping ad eternum com aquele refrão dilacerante.
a cada repetição, uma lembrança. alternância entre tempos felizes e infernos astrais.
da mesma forma que sempre encarei a felicidade como consequência, sempre busquei um culpado para os fracassos.
já culpei deus, o diabo, amyr klink, frida, os signos.
já atribuí a responsabilidade à coisas que eu nem sei como funcionam.
são cipriano deve me odiar.
levei um ano e alguns salários para entender que simplesmente não fazia sentido.
a beleza de ser autodepreciativo, celebrando a solidão como se fosse uma conquista, o fato de estar à deriva como se fosse uma opção.
***
— acorda, bonitão — o despertar veio naquela voz rouca.
já estava amanhecendo.
meus olhos eram remela pura. custaram a abrir. não reconheci seu rosto, mas a cor de seu batom eu já havia visto naquela noite.
perguntou se eu queria usar o banheiro. eu disse que não. agradeci e saí.
faço um sinal, o táxi pára.
— cruz vermelha, por gentileza.
no dial, o inconfundível locutor de voz açucarada: "você ouviu jon secada com just another day. jb fm faltam quinze para as sete."
que livramento!
naquele exato momento eu fiz as pazes com deus.
(crédito da imagem: http://glo.bo/1MVQ3yt)
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