o silêncio prevaleceu desde o derradeiro encontro.
naquela noite, nós dois, um cadáver anunciando a própria morte, revendo os termos e condições como se fôssemos produto ainda na garantia.
mas já era, já eramos, tudo mudou, todos sabíamos.
dormi decidido a abolir o caráter definisório; se é pra mudar, muda direito, porra.
acordei sábado às dez tomado por uma espécie de amor próprio platônico.
o nescau estava mais doce, a torrada mais crocante, o pouco de sol que a persiana permitia a entrada tinha um brilho sem igual.
o celular carregado, as primeiras notícias do fim de semana.
a curiosidade toma conta.
whatsapp. sua foto mudou. seu status também.
facebook. não estou mais na sua lista, mas ainda posso vê-la.
(linkedin. isso você nunca teve. até hoje não sei se és autônoma, freelancer ou apenas uma pétala cuja brisa carrega por aí.)
sei com quem sai, para onde vai, o que tem feito, comprado.
vejo quem te marca em fotos que eu duvido que tenham passado pelo seu crivo.
(se bem que a gente perde um pouco a noção quando está sozinho e insatisfeito; liga o foda-se pro cabelo suado, pro olho fechado, pra boca monstruosamente aberta, pro ângulo desfavorável onde a pochete diz olá.)
leio manchetes que me trazem à mente a reação mais óbvia que você teria:
rock in rio confirma artistas que eu sei, você daria um rim para ver de perto.
morre aquele cantor cuja música um dia fez parte da nossa trilha sonora entre quatro paredes.
novo método contraceptivo chega ao mercado e eu já imagino você esperando a farmácia abrir.
aí a sua foto muda, o seu status também.
eu sei que você se preocupa também; eu sei que você se pergunta também.
a curiosidade é foda, mesmo quando o interesse é nulo.
o monitoramento pelo monitoramento; estar em dia, dar aqueeela espiadinha.
me divirto tentando decifrar o que as suas metáforas querem dizer, o porquê de teres postado tal música, dando ênfase a tal trecho da letra.
os sinais me levam a crer que está tudo bem e isso é bom pra caralho.
nunca quis que a vida lhe castigasse por mais que você tenha castigado o meu coração.
desde a manhã de sábado que sucedeu o ponto final mais dolorido da minha vida, sou apenas amor (ainda que amor sabático, com chuviscos e ruídos, mas amor amor, do tipo que reveste)
nova foto, novo status.
fotos em preto e branco e sua dramaticidade.
eu estava enganado: você ainda está na merda.
não procuro a confirmação de que sou o causador.
de longe, e nunca em altos brados, torço para que chegues ao fundo do poço.
e de lá dê o impulso de volta para o topo.
(só não conte comigo na superfície: eu não estarei lá.)

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