verifiquei que em duas sacolas cabem o concreto, o planejado.
cabe aquilo que jamais conseguiríamos.
cabem pontos de ruptura e uma penca de recomeços.
cabe a esperança de que a manhã seguinte cicatrize o dia que devia terminar logo!
muitos megas de canções de efeito peridural, que ao tocarem promovem verdadeira bagunça no pensamento.
infame este recurso, o shuffle — apaixona-se e desapaixona-se no modo aleatório, tal qual o tocador de mídia, que sempre pareceu escolher a dedo — do meio — a trilha sonora mais apropriada para cada momento.
tantos foram os versos que eu fiz nos intervalos da manhã, abdicando do pão com manteiga, do convívio dos colegas, do wifi liberado.
tantos foram os engarrafamentos.
celulares sem crédito ou bateria.
muito este universo conspirou — ora cúmplice, ora traiçoeiro.
e os ideais de futuro? a dois, a sós, inimigos íntimos, nós sabíamos, mas rejeitávamos burra e cegamente.
acomodação. ilusão.
não sabíamos o que queríamos, mas sempre queríamos o que não teríamos.
mas sorríamos.
e trepávamos. como trepávamos!
a química de dois amantes em eróticos tangrans.
nossa humanidade enquanto condição e característica.
duas sacolas pareciam ser muito.
até que vi o personagem de george clooney em amor sem escalas dimensionando a vida em uma mochila.
ele se fode no final do filme.
finais felizes: uma falácia?
amores improváveis não têm como durar uma vida toda.
o encanto da primeira impressão é perecível.
não se negocia a individualidade em casos extremos de amor-prisão.
um par de tênis, um par de chinelos, uma colônia, camisetas, dvds, um livro.
e um fio de cabelo seu, intruso, parasita.
um fio alien a emitir sinais em tempo real para que saibas o momento exato.
tudo isso coube nas duas sacolas.
as quais são como os sonhos: você pode sempre colocar no corredor.

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