pedi um açaí na velha pastelaria. era véspera de natal naquela movimentada rua de copacabana. tenho mania de observar as pessoas que vêm e vão, personagens em potencial para futuras estórias.
recebi o açaí das mãos da chinesa. parecia um sabonete phebo de tão duro. o guaraná em pó mal dissolvido garantiu o sabor idêntico ao daquele um ano e meio de juras de amor eterno e transas contadas nos dedos.
a pastelaria, com seus bancos de madeira que são um verdadeiro castigo para a bunda, com seus salgados fazendo aniversário na estufa, com a mesma chinesa que certa vez nos perguntou se era pra sempre.
ao me ver sozinho, e me reconhecer mesmo depois de tantos anos, a chinesa obteve uma resposta.
— sim, é pra sempre.
rolou um espanto. até parou de passar a flanela sobre o balcão todo cagado de caldo de cana. prossegui.
— ela seguirá comigo até o fim da vida, no lugar mais importante que ela poderia estar, na minha memória.
ante a minha fala de alta entropia, a chinesa deu preferência ao sujeito que encostou no balcão ao meu lado para pedir uma coxinha.
— com ou sem CATUPILY?
contive o riso. em tempos mais primórdios, eu riria disso até a morte.
olhei para o açaí, que seguia em estado de pedra, um monolito roxo com entorno já em estado liquido. dei um gole e senti o gosto daquele beijo virginal.
nem sempre o final feliz é o melhor final, e isso não se restringe ao campo dos relacionamentos.
sobretudo quando você tem 16 anos.
a chinesa não tinha troco para 10, falei para ela guardar na caixinha de natal. deve ter me achado no mínimo maluco. ou burro.
já no ônibus, parei para pensar na resposta que dei para a chinesa. tentei interpretá-la e, por não conseguir, me senti fodão.
isso se chama arte! ISSO SE CHAMA ARTE, CARALHO!
e eu sempre soube que ela gostava mais de meninas do que de meninos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário