Fui ao teu encontro.
Primeiro encontro desde muito tempo.
Aceitei vê-la mais por aceitar do que por vontade
incontrolável de materializar a situação que há tempos venho evitando.
Talvez o estoque de desculpas tenha esgotado.
Torci pelo imprevisto. Mas não rolou nenhum.
Na verdade, até fui liberado mais cedo — o que nunca ocorre
quando é para ir ver jogo de futebol, por exemplo.
Dez minutos caminhando do escritório até o ponto de ônibus.
Um ventinho sem-vergonha, mas o bastante para não suar.
A espera no ponto foi menor que de costume. O ônibus veio
vazio. Tinha ar condicionado. Cobrador e motorista cumprimentaram de volta.
Bilhete Único passou de primeira.
Trânsito livre mesmo nas ruas mais ingratas do trajeto.
Desço no metrô, estação no meio da linha dois, vagões tipo
latas de sardinha... que nada. Uma beleza. Assento VIP sob a ventilação. Nada
de camisa grudada no corpo hoje.
As típicas interrupções, "estamos aguardando a
liberação do tráfego à frente" etc. passaram longe daquele trem blindado
contra a superlotação.
Viagem tesuda, surpreendentemente rápida; suficientemente
intrigante.
O que estaria à minha espera?
Seria todo esse cenário de sonho, na verdade, calmaria antes
da tempestade?
Bonança pré a tempestade que é a vida quando resumida a você
e eu?
Alguém me ajude.
—
— você não mudou nada — disse ao chegar.
— e devia ter mudado? — respondeu com semblante angelical
que tantas vezes me amolecera no passado.
um passado até recente. recente o bastante para ativar a
memória sensorial. o perfume prada, misturado ao hálito de menta, da pastilha
usada como disfarce para o cheiro de cigarro que os dentes levemente amarelados
não negavam, vinha sendo consumido aos montes nos últimos meses.
— trouxe isto para você — continuou.
preferi não abrir. agradeci. guardei na mochila.
permaneci estático. na minha mente, um cais de porto, noite
estrelada; tudo o que fora dito há exatos sete anos; nós dois sob os olhos dos
pescadores que regressavam do horizonte.
naquele momento, éramos ela e eu, banhados em gasolina e,
inconscientemente, motivados a produzir a fagulha que causaria um incêndio de
enormes proporções.
eu a sentia me olhando. sabia no que ela estava pensando.
ela tinha algo a dizer. tenho certeza.
seguindo o que já foi a ordem natural das coisas, pousei a
mão sobre sua perna e senti suas duas mãos me segurando.
— apenas não — disse.
acontece que eu já tinha ido.
ido embora.
de sua vida.
quando dei por mim, aqueles olhinhos castanhos e pidões
haviam se perdido no orvalho.
ao prevenir a tempestade, ganhei uma visão embaçada do que
já considerei ser meu futuro.
dei sinal para o táxi que me tirou da página mais extensa
que os céus já haviam escrito na minha vida.
Alguns livros se tornam melhores depois q acabam, não vale a pena voltar a mexer em velhas páginas amarelas. Deixe q a estante, o tempo e a poeira consumam suas histórias e guardem seus silêncios.
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