terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Minha pior metade


Vi um atropelamento enquanto esperava o ônibus para vir para o trabalho.
Moça jovem, não mais que 20, uniforme de escola estadual.
Atravessou sem olhar, motorista veio com tudo, voou a pobrezinha.
Apavorado, ele prestou socorro, foi solícito, não saiu de perto dela.
A ambulância chegou a tempo de registrar seus últimos suspiros (ou seriam espasmos?) de vida.
Uma viatura da polícia encostou para registrar a ocorrência.
A curiosidade dos populares, sob o invólucro da comoção, atrapalhou o tráfego.
Celulares a postos, cliques a mil.
Os ângulos mais diversos de uma mesma pose.
Até que surge um pano preto, que dispersa a multidão.
Toda tragédia é um espetáculo sórdido.
A morte é assunto predileto: na loteria, na manicure, nos grupos de WhatsApp.
Quando se viu de perto, permitindo-se descrições detalhadas, melhor ainda.
O contador saboreia a história que conta.
Quem ouve/lê tenta visualizar o sangue.
Ainda com o fone de ouvido, fiz o sinal da cruz e uma prece silenciosa, enquanto a minha pior metade dava graças à Deus pela morbidez da curiosidade alheia: menos gente na fila para pegar o ônibus com ar-condicionado que se aproximava.

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