quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Lemmy


Era noite de 28 de abril de 2007.
O relógio marcava 21 horas.
Um chegado me convoca no MSN para uma boa tão improvável quanto de última hora.
Motörhead. Fundição Progresso. Dali a uma hora.
Cinquenta reais — ou o galo solitário na carteira do então vestibulando que vivia de mesada.
"Mas tem que levar 1 kg de alimento não perecível."
"Não tenho. E agora?"
Numa das maiores broderagens que tem notícia, meu chegado promove um saque na própria despensa me fornecendo o açúcar que asseguraria meu passaporte para o que se tornaria um dos momentos mais sublimes em toda a minha ainda curta trajetória de shows de rock.
Naquele 28 de abril, meus ouvidos perderam a virgindade.
A turnê era de Kiss of Death, petardo que se tornou um dos meus prediletos da banda.
Acompanhado somente por um refletor solitário, Lemmy adentrou a escuridão do palco, carregando seu Rickenbacker como um lenhador com o machado em punho.
Seu semblante era mais que convincente: não haveria escapatória.
As quase duas horas que se seguiram a partir dali foram de total insanidade e divindade; exclusividade daqueles que elevam-se do status de roqueiro para o de deus.
Um ano atrás, o rock perdia um de seus alicerces.
Lemmy viveu conforme os valores que pregava.
Sua existência pode ser confundida com a existência do próprio rock.
Abra uma cerveja, aumente o volume, solte a voz, faça o air guitar.
Permita-se uma noite de rockstar, no quarto que seja, em homenagem.
Enquanto houver rock, a música de Lemmy permanecerá conosco em alto e bom som.

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