quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Os trinta estão chegando (ou alguém segure este divagador de frases soltas que se julga poeta)


Os trinta estão chegando e com eles trazendo a soma de todos os meus medos.
Nunca me disseram que seria assim, tantas pedras no caminho.
Pedras no caminho, não fumei nenhuma delas; tampouco as colhi para erguer meu castelo.
Topei na maioria, descalço, ralando o calcanhar, arrancando tampa de dedão, em curiosa alegoria ao futebol de rua da infância.
Que diria o Marcelo, bola dente-de-leite, trave de chinelo, se visse o sr. editor, jornalista diplomado, especialista em rock ‘n’ roll que nunca fez um centavo com o conhecimento que é a sua maior paixão?
Quem lê pode até pensar que sou o epítome do fracasso.
Sei que não sou e nem é essa a impressão que quero passar, mas preciso ser realista: os trinta dos meus sonhos eram mais saudáveis.
Dizem que a vida não nos fornece um fardo que não possamos carregar, mas olho para trás e vejo as pegadas fundas de quem vem trazendo um sobrepeso descomunal sobre os ombros.
Os trinta anos pesam como pesam as responsabilidades, como pesa a frustração de não ter “chegado lá”, como pesam os pequenos sinais de que ao contrário do que aprendemos que a vida é a eterna busca pela felicidade, a vida é a eterna busca pela estabilidade, nunca atingida em sua plenitude, nunca alcançável em sua integralidade.
É como se para ser feliz, no sentido mais superficial da palavra, eu fosse obrigado a reconhecer que não estou mal comparativamente falando.
Tem gente pior? Lógico. Tem gente em cama de hospital. Tem gente desempregada. Tem gente lutando para trazer a verdade à tona.
Mas isso não deveria me servir de consolo nem de motivo para festejar em qualquer nível a incompletude da minha realidade.
Eu quero sempre mais. Isso me move. Ter a certeza de que esse mais beira o utópico me freia.
O colega ao lado mora com os pais, tem um emprego de merda, não paga uma conta, vive em função dos fins de semana, dos “qual é a boa?”, do “bora beber” numa noite de quarta-feira.
O outro vive viajando pelo mundo, não sei se as custas do próprio trabalho ou do papai, militar de alta patente, fonte inesgotável de recursos.
Se comparar com os outros é se posicionar na mediocridade, reduzir os próprios méritos, se atribuir uma culpa inexistente por um fracasso que também não existe.
Cada um no seu tempo, e eu só gostaria de conseguir respirar normalmente.
Voltamos após os comerciais.
Ou não.

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